quinta-feira, 7 de agosto de 2008

A Brincadeira dos Anjos.

A brincadeira dos anjos acabou.
Na terra árida de ilusões diminutas
as paixões poetas se volveram em sonhos,
em anseios planos, pobres e tímidos.

A brincadeira dos anjos acabou mais cedo.
Na veia da inocência e da lembrança
não passa, vermelho, o sangue novo,
nem sorve esse fluxo da nossa necessidade.

A brincadeira dos anjos acabou, infelizmente.
Nessa terra úmida de alusões infecundas,
os papéis e escritos foram todos rasgados,
os acordos de paz, o sentimento de herói.

A brincadeira dos anjos acabou impura.
Devorou em seus braços uma dor tremenda
ao prever um futuro magro de desastres sólidos,
de mães soltas, pais desatentos, filhos renegados.

Os anjos, assim, voltaram da brincadeira.
Negros como os olhos das nuvens apocalípticas,
engendrados em um enredo tosco, sem graça,
com o desânimo nos rostos e a crise nas costas.

A brincadeira dos anjos já não é segura, acabou.
Na altura rasa do solo deixaram a marca do jogo.
Os pés pisados na terra, fecundos de tristeza e lama,
esterco e cinzas, fé e fruto, nostalgia e lágrima.

quarta-feira, 6 de agosto de 2008

Os Olhos da Casa.

Na sala, os ouvidos do mundo
voltados pra televisão.
Os pais, a mãe, o avô, mudos
e o filho no quarto, na solidão.

Chegou atrasado na aula,
perdeu esperança em amor,
em cultura pra preencher o tempo,
e na rotina fincada ao longo dos dias.

Desamarrou os sapatos surrados,
num canto deixou a mochila
e dormiu, com cinco remédios pro sono
e outros três pro esquecimento.

De dia, na sala, todos acordam,
colocam no telejornal da manhã.
O pai, a mãe, o tio de ressaca, o avô, a irmã
tomam um café apressado de meias palavras,
de meios sentimentos engasgados,
junto com as bolachas,
o pão, e o talher.

No quarto ele continua dormindo,
num sono profundo, projétil pedante,
sem diálogo profano e o mundo ausente.
O ouvido do avô encosta na porta trancada,
queria saber o que se passava...
Mas de que adianta isso tudo, pensa ele,
põe os ouvidos no telejornal, na sala, na novela,
que se confundem,
e já saberás onde andam os ouvidos que ouvem essa casa.

Deu meio-dia no quarto
e ele nem havia acordado.
Dormiria mais uma vida em segredo,
se necessário.
Quem saberia do que seus olhos vêem?
Do que se anda pelo mundo
e os passos desabrigados que ele dá na rua?
Os olhos da casa estão virados,
os olhos da casa não enxergam a um palmo.
Todos estão ligados em outras coisas.

A Língua.

A língua lambe o céu da boca.
A língua, lânguida, longínqua,
libera a libido, longe, solta
e pinta o paralelo da lua,
a língua, indistinta, leve, louca.

Aos lábios a língua saliva,
lubrifica lacante a boca alheia,
no lounge do limbo excita a veia,
na luta cavalar que trava lá,
sem lógica, lugar ou moral.

A lascívia dos olhos, que lacrimeja,
a leste dos lábios, e longe da língua.
Aos olhos invade a inveja, que almeja
a longitude dos lábios, sua luxúria,
seu lugar lúbrico e a liberdade do labor.

Ao lavrar sua lástima, deseja a língua,
livrar-se das lágrimas latentes dos olhos,
e o fala dos lugares lúdicos que só ele vê,
da beleza das letras, e o lançar do amor,
que aos lábios e línguas lhe podem tocar.

segunda-feira, 4 de agosto de 2008

O Emanar Invisível d'Alma Urbana

Aos olhos do turista,
que no alto da janela despressurizada do avião,
o Recife que ele avista,
tão tarde, tão cheio de si,
não passa somente de uma Veneza,
pois Veneza, Recife não é.
Recife que cresceu,
sem querer perder o charme de ruas antigas
e deixou suas vielas
com o tamanho das veias,
dos cidadãos.

Aos pés dessa terrinha onde ele pisa
com histórias escritas e enterradas,
de um passado que insiste em perdurar,
dormem sonhos bucólicos,
glórias adormecidas,
revoltas sufocadas,
hoje sufocadas na garganta do povo,
nos sentimentos guardados
em ideais da lama
e do suor do centro.

Com os pés na Boa Vista, ou na Viagem,
essa bagagem de turista não almeja,
a profundidade de um Recife
que vai além do que vê sua vista,
ou do que falam encartes,
iscas de passaporte.
A província recifense é quem vence,
nesse encontro onde todos se conhecem,
um Recife de viela,
que nunca deixou de ser vila.
Nem nunca quis deixar de ser.

Dormem sonhos emanados,
dos orvalhos das árvores do Espinheiro,
e dos telhados envelhecidos de São José,
com seu cheiro de mofo,
com sua madeira podre,
e a alma distinta,
de um povo que a toda hora é nobre,
e a toda hora se diz grande,
espelho onde o mundo mira,
onde o mundo se transforma,
onde o mundo, simplesmente, nasce.

Caos no Cais.

No Cais do Recife,
dei adeus a vida.
A saudade inchou meus pulmões,
e os peixes do oceano sujo,
que amanheceram boiando,
às margens do Capibaribe.

No rio de terra que plantei infecundo,
nasceram palavras à toa,
boiando à deriva,
num mar que Recife não mostrou,
nos arranhões que fizeram minha veia sangrar,
nos tubarões que passeiam à beira do mar.

Se há cais na Aurora,
meu riso desata e chora,
ao ver o Recife inundar.
A água que nasce esse hora,
e brota dos olhos, do pranto,
é um rio desejo formar,
invade minha alma aqui dentro,
com móveis, colchões e recantos,
e os sonhos que eu ia criar.

Se há caos na Aurora,
minha veia dilata agora
de imensidão, de sol.
Se há caos no Apolo
meus nervos fecundam o solo
e fazem junto essa dança, esse passo.
Se há caos na Alfândega,
me embaraço,
perco noção do espaço,
e o cérebro vira almôndega.
Se há caos no Cais de Santa Rita,
nas linhas que enchem a capital
me grita à cabeça o motorista,
e perco a hora do bacurau.

Se o ônibus não transita,
é a Conde da Boa Vista, motorista,
abre essa porta de trás,
abre a janela, não insista,
que o sol não me põe uma hora a mais,
o calor que emana lá da pista,
só me faz desaguar em maus lençóis
e não chego, nem fudendo, antes das dez.

Solidão na Casa Velha.

Quando calei-me de pijama,
vestido de rios de espermas que correm,
foi só na terra que quis transformar-me,
ser a terra
e flutuar.

Me levaram ao mar de pescadores surdos,
cumprindo, no absurdo do infinito do mar,
a tarefa diária, como peixes,
mas esquecendo no quarto a mulher sozinha,
o filho com fome, sobrinho desdentado,
e a sogra morta
na calada da noite.

É como um corte de foice,
a machadada veluda,
a pancada suave no coração.
Me tirem a pele, o luto, a labuta,
mas não tirem esse rio bonito,
esse mar que deságua
lá na calçada de casa,
e vem banhar os meus pés,
tão cheio de lixo,
tão cheio de podre.

Fui eu que abandonei esta terra,
destronei filhos, fiz política.
Na minha vida de rios,
de desejos passageiros
e de sonhos frustrados,
me tornei senhor de mim mesmo,
imperador desta desterrada casa,
tão cheia do cheiro da infância,
tão cheia das brincadeiras
e daquelas conversas no muro,
até a alta meia-noite.

De madrugada não durmo.
Esse cheiro de madeira velha,
esse mal-acordar noturno,
com as lembranças desgastadas, a saudade,
e as paredes vazias.
Não há retrato,
o fato diário nesta casa sou eu,
eu que já fui menino doente,
já fui menino solto, danado,
hoje, sou eu,
desiludido, descontente,
o filho mais novo que guarda
essa casa tão cheia de ontem
com peso da memória de todos,
o peso difícil da família,
o peso pungente e o sacrifício.

É meu esse tato,
esse cheiro,
esse mofo,
esse chão incorreto,
essa terra destruída,
onde não há fantasmas,
onde há pouco habitou,
pai, mãe, irmãos.

Não sei do jardim bonito,
dos coqueiros podados a cada seis meses.
O que me importa os cuidados da casa,
se já não há casa, nem acolhimento?
Não há frondosas árvores,
nem frutas colhidas,
nem aventuras nos pés, nos galhos.
Não há mais natais,
e suas luzes de cores,
só resta essa natureza morta,
a alma morta da casa.
Nos rangidos da porta,
nos gritos diurnos,
nos passos de gatos sorrateiros,
me escondo.

Não há onde ande por aqui,
e não esteja uma imagem, um mar, um rio.
Carregar este fardo é um desafio,
e o pior, me penhoro, me pioro,
pois só o mundo, talvez, abarque,
e eu abarco,
os resquícios e o pó dessa casa velha.

sexta-feira, 20 de junho de 2008

Desvelo.

Entre palavras ditas e não ditas,
entre lembranças que agora guardo,
fecho para sempre o enlace que me une a ti,
e as barbáries que te disse na ingenuidade.

Tu, que me amaste com tudo,
que deste semanas de pensamento a mim,
quem sabe anos,
hoje guardo,
hoje me vejo obrigado a guardar.

Não concluo nada nisto que escrevo,
é o pouco que tenho a te dar,
pois não há nada que já não tenha sido dito,
e nem nada que deva mais ser falado.

É sem choro que guardo,
é sem choro que te devo guardar,
sem desvelo, desencanto,
sem nada.

quinta-feira, 19 de junho de 2008

Doença da Boca.

Se é tola a doença da boca,
que assola, consome, corrói,
tão tola é a vida, que louca,
assoma com o sumo e destrói.

Voz rouca d’uma doída crença
abre uma chaga, inflama e dói
traz firme e transforma a doença,
que solta nas chamas se reconstrói.

Dos lábios viscosos lanço a ogiva,
que explode nos lírios, à veia atroz,
pois, forte, esse ardor alastra a vida.

Não some esse ácido, que feroz,
craveja na boca, abre a gengiva,
e lança o seu hálito sobre nós.

Os Conselheiros da Noite.

Às onze da noite deslizo,
na cama com insônia,
sonhando suado
nos vãos espaçados
dos nós da cama.

Dos nós que desato,
no sono do leito,
anjos e diabos voam soltos,
rios e riachos deságuam revoltos
sussurrantes no extremo lá da foz.

Meu corpo transmuta a objeto
na ponta da cama em que me deito,
onde projeto sonhos, desejos, dejetos
e bem perto da cabeça passam
gotas de luzes,
sono abscesso,
dentes podres,
textos pobres,
doces ilusões.

Atrás do pensamento onde corre
esse momento noturno que agarro,
nessa insônia em que acendo um cigarro,
e paro pra pensar nos detalhes do dia,
na viga da rotina encravada
na espinha dorsal do meu corpo
e do corpo de um mundo todo,
cheio de mim, e egoísta,
com medo do escuro
antes de dormir.
Esse dormir que não chega.

Não me deixe aos peixes dos lençóis da cama,
essas ferozes presas de escama ardente,
com o seu veneno pleno e tão feroz de serpente,
e seu calor de delírio que me alimenta a chama.

Não deixe essa insônia,
rio, riacho,
grama e pasto,
acabar com o sonho do menino,
com as angústias sadias, secretas
que correm velozes como um rio.

Me deixe que grite a tais sussurros,
e alto o meu urro atinja a lua,
me solte tão louco nessa vida crua,
nesse mundo calado, cansado, inseguro.

Gritando mudo na cama,
minha veia inflama a tais desvarios,
a saliva das almas deságua em rios,
que saltam da boca,
mínguam entre lençóis manchados,
e se fundem às entranhas da pele,
e aos bichos que dormem
por sob minha nuca,
sob meu teto,
e meu pensamento.

Por entre anjos, se afasta sorrateiro o demo
e se acanha soturno embaixo do travesseiro,
pra dormir, conselheiro, aos meus ouvidos loucos.
Então, de manhã, quando menos espero,
pronto pra um dia que amanhece altivo,
acordo desperto e encerro a noite, vivo,
com a alma tranqüila e endiabrada.

Queimem.

Queimem meu passado envelhecido,
fazendo desgraças com sua dança,
corroído por traças, travoso vício,
devorando solto as paginas de meus livros.

Queimem, afinal, meus livros e lembranças.
Quem necessita de tais memórias?
Queimem, então, a minha memória.
Queimem, é preciso.

Quem me deu mais desse tempo,
e criou Cronos a reger séculos,
a reger dores, e a curá-las
quando bem entende?

Nestas folhas de caderno,
este erro aberto a escárnios,
a represálias de ódio e sarcasmo,
em seus sussurros evoluídos
e gritos de dor,
escrevo frases forçadas,
com suas revoltas tolas.

Queimem meu chão,
meu colchão, meçam a dor.
Que o ardor da prisão,
onde queimam nos pavilhões,
outros tantos colchões,
de revolta, de doenças,
e de crimes de amor,
não me deu liberdade
e criou-me covarde,
nessa ansiedade infame.

Queimem também meu nome
e quem sabe a idade,
pendurada na porta
com essa placa de parto,
e essa mãe quase morta
respirando por tubos de adrenalina,
e sonhando com os sonhos da morfina,
mais belos, com certeza,
que meus sonhos mais banais.

Sem carregar o meu nome, todavia,
queimado a sorte de uma infância tardia,
não vi queimar-me esse fogo,
e às chamas me atirei, de novo,
superando o pesar da covardia.

Mas quem me deu tanta discórdia,
tanta falência múltipla?
Me deixem as canções,
que é o que sobra,
e queimem retratos
colchões, melodramas.
Queimem também minha cama
meio leito, minha história,
e no canto sagrado de um quarto
renasçam num parto esse outro sujeito,
um novo ser já desfeito
de suas mais vivas memórias.

terça-feira, 10 de junho de 2008

Aos Pés da Palavra.

Me perco,
me calo
e me acho
no fosso da lembrança,
no ralo.

Não é apelo o que falo,
é que me esgoto.
Só há desgosto,
esgoto, escória
e asco.
Só há veneno de rato.

Onde me rendo,
é na palavra,
e surpreendo coisas,
pessoas,
levanto voo,
plano por sobre montanhas
e planícies fecundas,
açudes redondos,
regalos.

Do teto saem
palavras,
que tolas caem
num ciclo
resvaladas nos braços,
expulsadas dos pulsos,
distraídas
no colo.

Aos pés da palavra imploro,
que me rogue espírito,
que vença a lembrança,
e veja a vida passar.

Aos pés da palavra isolo,
aflições, terrorismos,
bombas, insônias de grito alto
palavras de salto alto.

É ao pé da palavra onde choro,
e onde o solo encerra a lágrima,
esta palavra, que ácida,
não comove a terra,
nem lavra o chão,
nem planta angústia.

Não move moinhos,
nem sonhos,
não desperta a ira dos loucos,
nem desponta as flores,
de selvas, de campos,
de jardins regados por velhinhos aposentados às seis da manhã.

Eu quis soltos
os pássaros,
com seu cantar rouco
e as pautas de aço onde pousam.

De tanto quer tudo,
e equivocar-me,
obtive um tanto do mundo,
dos homens,
dos cérebros bondosos,
de dos defeitos de tudo.

De tanto querer tudo,
equivoquei-me.



domingo, 18 de maio de 2008

Insoníferos.

Eu vou fazer a barba com pinça,
cortar os pulsos de verde.

É nesse momento que me arrasto à porta,
miro, caótico, meus olhos vermelhos
e prendo meus dedos nas fendas enferrujadas.

Eu vou cortar meus cabelos baixos,
como um louco,
pois eu acho pouco essa ferida baixa,
essa dor calada.

É nesse momento que me olho profundo no espelho
e choro, neurótico, uma lágrima que corta.

Meu pranto tem sabor de desvelo,
saca a própria arma do bolso
e atira uma bala à nuca.

Não perco o prazer de olhar o espelho,
enigmático, pois é agora que ao atirar
a chuva nasce, como num resvalar de pingos
nas palhas dos coqueiros.

Minha lágrima irriga os pensamentos
no sul de meu corpo,
e alimenta a insônia rouca das madrugadas.
Muda como a solidão.
Calada.

Me faço indagar três semanas de alegria
e planto, no mato, no póro, sem alvará,
um choro, um pranto, um raio de sol.

É nessa hora que mato a lágrima,
e que a esperança se espalha, como um vírus.
Não olho mais pro espelho, e me esqueço.
Minha face me cansa, e meus olhos.

Parado de noite penso na vida.
De que adianta a liberdade só?
Se não há a quem dar no outro dia:
"Bom dia, flor do meu dia,
bom dia, raio de sol."?

sexta-feira, 25 de abril de 2008

O Corpo ou Algo ao Lado.

Tenho a mão perto dos olhos
tenho a tristeza que acena ao lado
faz um carinho na cabeça
me beija a nuca
e dorme.

Tenho nas mãos o teu poema afiado
tenho o teu choro, no papel, secando
me molha a pele
me traz um sonho
e some.

Tenho no rosto um dos póros sangrando
tenho um olho profundo que por dentro me olha
me esquece sozinho na cama
me diz duas palavras ao ouvido
me consome.

Tem um mar
e no fundo me afogas.
Tem um espaço
entre eu e ela.
Tem minha cabeça
com anseios torpes.
Minha junção da perna com o joelho
meus ombros e costas
a ponta dos dedos dos pés
a mão cansada de escrever
o coração que se cansa
e o pensamento que dói.

Monólogo na Cozinha.

- Eu acho que amar é o único anseio que nos resta hoje em dia, Ana. Não há mais revolução, ninguém acredita na política, poucos querem mudar o mundo, Ana. Então o que nos resta é amar. Pra quê fazer revolução, Ana, se eu posso ter você todos os dias aqui nesse apartamento. O mundo acaba, Ana, quando nos encerramos aqui, nesse "sala e quarto" pago em aluguéis tão razoáveis. Acabou. Esse papo chato de emprego, de empresas júniors, de investimentos pessoais, de marketing avançado, de crescimento econômico e social, ascensão profissional, gastos mensais... Ninguém quer saber mais disso, Ana. O mundo se encerra quando se ama. Não há adolescente hoje que não queira apenas amar e consumir. E consumir já é um ramo que nasce da árvore que é amar, porque qual o sentindo de consumir que não seja o de aparecer para ter, e ter para atrair? Tudo bem que hoje é melhor se ter do que ser, mas isso é errado, Ana. As pessoas de hoje só querem é amar mesmo, é tudo voltado pro amor, mesmo que equivocadamente, é tudo voltado pra ele. Os deputados desejam despir-se de seus paletós, assim como empresários e funcionários públicos. O estudante quer tirar sua farda, e ficar nu para o mundo. E amar. Eu só vejo isso, Ana. Vivemos uma crise existencial de proporções quilométricas, Ana! Você não percebe? As pessoas não são mais, elas vivem para ser algo, e no fim da vida percebem que não foram nada. No fundo elas queriam amar, Ana. Mais do que amaram, mais do que viveram. Todos querem despir-se, se libertar de vez e andarem livres no meio da rua. Você não percebe? Está todo mundo aflito, e a juventude mais ainda, porque está reprimida em sua plenitude de amar, porque ninguém permite a eles, que passaram a vida escutando, que passaram a vida recebendo exigências de melhoras de vida. Falam que é necessário ser alguém a toda hora, mas não sabem que esse ser alguém é, na verdade, se destruir para não ser nada e ter dinheiro para ganhar o mundo. Mas não se ganha o mundo com dinheiro, Ana. O mundo se ganha com amor, esse amor que é tolhido desde da infância, essa pureza que nos é tirada desde quando pequenos. Eu te amo desde pequeno e o mundo se basta somente quando te tenho. E assim segue com o resto das pessoas. Quem quer crescimento de vida quando se tem a quem se dedicar, quando se tem alguém que lhe admira? O mundo se encerra, Ana. O mundo se explode. É por isso que hoje ninguém quer mais revolução, ninguém quer mais política, estão todos ausentes das questões que as envolvem, porque estão todos sozinhos. A solidão aumentou. E quanto mais ela aumenta, mais se sente a necessidade de amar, Ana. E quando estamos sozinhos, desejamos cada vez mais estar menos sozinhos e andar por aí, pela vida, errando, tentando suprir uma vontade cada vez maior de não estar só, e se ter alguém para conversar num fim de tarde. É isso que as pessoas sentem. É por isso que vivem correndo atrás de objetos fúteis, de saídas furadas e de conversas quaisquer. É por que sentem esse desejo de estar com alguém, de se despir, Ana, e de amar. Tudo se resume a isso.
- Olha! Tua papa tá pronta.
- Poxa, valeu.

Papo Funesto de Fim de Tarde.

- Sabe, Ana, eu não tenho medo da morte.
- E porque haveria de ter? Você é tão cheio de si, tão aventureiro.
- Não é isso, Ana. É que eu não me imagino sentindo dor ao morrer. Eu acho que a dor, a dor verdadeira que se sente, é só para aqueles que ficam, só para aqueles que continuam na vida e sentem saudade. Eu teria saudade de você, Ana, se não estivesse morto. Estando morto eu não sentiria nada.
- Eu não queria que você morresse. Você me faria falta.
- Por que te faria falta?
- Ah! Sei lá. Você cuida tão bem da casa, lava minhas roupas, minhas calcinhas.
- Ha! Engraçada!
- Você sabe que não. Eu sentiria falta do seu corpo, das suas conversas bestas. Desse seu olho profundo que insiste em ficar me olhando. Do sorriso que tu me dá quando eu sorrio de volta e dos abraços. Dessas palavras bonitas que tu me diz, insistindo que meus olhos são teus, que minha boca também e que meu nariz é bonito.
- Ah! Mas seu nariz é bonito.
- Puf! Lá vem tu de novo com essa história.
- Eu gosto de você do jeito que você é, Ana.
- Não precisa me deixar com vergonha, né?
- Mas está vendo você: se eu morresse, a quantidade de coisas que você sentiria falta. Agora me diga: quem morre está sentindo alguma coisa? Quem morre está na pior? Claro que não. Não há sentimentos quando a gente morre, Ana. A não ser antes da morte, mas antes da morte ainda é vida. Nós morremos como se morre uma barata, uma muriçoca. E aí depois é o nada, assim como era o nada pra gente, antes de a gente nascer. Você me entende?
- Você também está sendo radical.
- Por que?
- E as almas? E aquela galera que ama tanto, e de verdade, que volta pra dormir com a pessoa amada, que fica puxando o pé do outro a noite para chamar a atenção?
- Isso aí é outra história, Ana. E esse negócio de puxar o pé não tem nada a ver com pessoa amada. Isso é lenda de interior.
- Eu acredito em lenda do interior.
- Continue acreditando.
- Você é cabeça dura, Carlos. Mas eu gosto de você mesmo assim.
- Sabe, Ana, eu queria poder ver o fim do mundo, o apocalipse. Eu gosto dessas coisas. Imgina? Os prédios caindo, bolas de fogo no céu, as pessoas correndo. Eu não teria medo de morrer, sabe? Eu teria medo somente de morrer logo e não poder ficar mais um tempo pra ver, de fato, o fim do mundo. Aí seria chato. Poxa, se eu tô no fim do mundo, eu quero ver o mundo acabar, até o final.
- Eu hein!
- Não, veja só! Eu acho até que penso de uma maneira bem humanitária em relação a isso. Eu sempre fui assim. Sabe quando você se dá mal em uma prova do colégio e deseja, no fundo, que todo mundo se dê mal também pra você ficar na média?
- Sei.
- Pronto, é mais ou menos assim. Se ocorresse o fim do mundo, e eu pudesse ver, eu ficaria feliz, porque estaria todo mundo morrendo também, e eu indo junto, todos juntos. Seria muito bonito. Era o que me reconfortaria. O fim do mundo não é feio, Ana, porque se morrer todo mundo, ninguém vai sofrer de saudade, ninguém vai sofrer de lembrança, e o homem se acaba de vez.
- Que papo estranho, Carlos. De onde tu tirou isso?
- Ah! Eu pensei agora. Mas assim, eu não queria estar sozinho no fim do mundo. Eu morreria muito melhor se você estivesse contigo, correndo das bolas de fogo, mergulhando em lagos ferventes, se esquivando dos prédios que caem e dos tremores que racham a terra.
- Nossa!
- Eu estaria muito melhor com você, Ana. E te amaria profundamente antes do fim do mundo, só pra não sentir saudade, caso a alma depois nos pertube. Eu te amaria sozinho, e você também. E eu iria sentir, que mesmo com o mundo acabando, eu teria o mundo pra mim com você ao meu lado.
- Poxa! Que bonitinho!
- Gostou? Eu inventei agora.

quinta-feira, 24 de abril de 2008

Estrada de Belém.

Pela rua passa
uma senhora corcunda,
um homem de bicicleta
que faz a entrega da água
e um moço amputado que pede

moedas pra sobreviver.

Pela rua passa
uma menina que atravessa,
um cego que pede auxílio,
um vendedor de frutas
e um homem que se interessa

em uvas para comer.

Na calçada da rua passa
uma carroça de ambulante
vendendo pipocas e doces,
bombons e cachorros-quentes
além de batatas-fritas

para quem desejar comprar.

No meio da rua passa
um gato domesticado
e um cão desorientado
que pára pra coçar as costas,
mas busca nos lixos, nas valas,

uns restos pra mastigar.

Pela rua, na sombra, passa
uma velhinha doente,
que está com os dias contados,
e uma mocinha tristonha
largada pelo namorado

com as flores que veio a ganhar.

À tardinha, na rua, passa
uma moça com brinco de argola,
um vendedor de pirulitos de tábua,
uma mãe que segura a criança
e um pobre pedinte que implora

esmolas a mendigar.

No fim da tarde, na rua, passa
um padre que pede a bênção,
dá a esmola ao mendigo,
olha pra cruz da igreja, e entra
pra rezar a missa da sexta

e as beatas e as hóstias a voar.

Na rua, de noite, passa
um amante atrasado, ansioso
com o relógio de ouro no braço
e um perfume de rosas barato,
que pôs no cabelo e pescoço

pra a amada singela cheirar.

Passa na rua, no fim da noite
uma mulher grávida.
Havia encontrado o amante,
mas agora corre depressa,
descobriu que vai ser menino

e precisa ao seu noivo contar.

De madrugada, na rua, se ouve
os passos de homens estranhos.
O medo da menina aumenta,
se enrola nas fronhas e sonhos,
passou o dia brincando

e agora espera a noite ceder.

De madrugada, na rua, 'inda passam
meninos distantes, desnudos,
despidos de sentimentos,
com a fome de um dia inteiro,
guardando farelos com fungos

pro dia que vai nascer.

Às quatro da matina invadem,
velhinhos que caminham na rua.
Despertam a dor do sono dos outros,
e correm soltos pra soar os sinos.
Acordam os homens que voltam

à rua, pra poder viver.

Passageiro Pueril

Por sobre a torre sussurra o pátio
e o seu silêncio inerente.
Por sobre a ponte passa inerte
a parte do povo que é podre,
pigarreando perdigotos,
plantando em terra infecunda.

Com o coito calado de caos
a pobre poluição se porta tão tátil,
versáteis as dunas dançam,
sereias de terra, de barro, de morte.
Tanto traçavam tributos desenhos,
que desdenhando acalantos dormiram só.

Por sobre telhados tão quentes
de telhas tabladas de puro amianto,
o pensamento platônico que passa ausente,
passageiro pueril e pungente
tratando torpezas de tratores gastos,
esgotados de escarros de hostis transeuntes.

O pedestre então caminha fulano,
entre outros tantos pedestres que passam na ponte.
O mar, que é fonte flagrante de um rio poluente,
se prostra pautado em suas marés mortas,
enquanto povos pacíficos, que aprisionam preceitos,
tão logo se tornam sujeitos, viris truculentos de antes.

Tratados tortos e portas
de torres tembladas de fungo
e um funesto fedor de mofo,
molha, meloso, um odor nauseabundo,
detendo dois dedos de dor
diante de um Deus de olhar profundo.

Perigo pior penhorado perante o calar do mundo,
da escória da terra esborrou, alerta, este odor severo,
trás o enxofre que transbordou, teatro triste de prata,
preso pego propondo práticas funestas,
pudera protestar, mas sublime, se esquivou e se escondeu na mata.
Não mata num tilintar de pratos, não passa,
tão só como veio, perdoou seu crime.

quarta-feira, 16 de abril de 2008

O Caso da Menina.

Há uma menina voando
e permeando imaginários.
Solta nos cantos, e leve,
enriquecendo noticiários.

Há uma menina de alma nobre
voando solta por sobre fios e telhados
transformada em pequeno anjo,
passeando por campos de trigo, e por cabeças,
tentando entendê-las e reanimá-las.

Há uma menina que cansa
do mundo adulto, da infância, e voa
por casas de barro atravessa
e dança, chorosa criança ao inverso.

Sente saudades da mãe,
e do pouco carinho que a anima,
mas está em outro mundo a menina
voando por sobre todos, e sorrindo.

Há uma menina voando por aí,
subvertendo no submundo.
Anda brincando solta com humanos
passando por casas de cimento e alvenaria sólida.

Há uma menina tão nova.
Voam os cabelos dela,
sentada no alto de uma grande colina,
anda tão livre e bela, a pequena
trazendo sorrisos singelos de menina.

Há uma menina de olhos ponderados,
que no auge da inocência,
voando por entre pessoas,
anda buscando nas valas, nos vales e florestas, um alento.

Quem sai brincando lá fora, ao vento?
Que grita ao espaço sussurros escassos?
Baixinho ela fala aos ouvidos do tempo
para que a entendam, menina,
para que a entendam.

Eu vi tuas lágrimas puras chorarem
e vi tua alma, sem saber onde chegara,
e ainda digo a todos
há uma menina voando,
por sobre o nosso inventário,
reinventando os horários
e pedindo, por favor, pra que ela voe em paz.

Há uma menina que ama, voando
longe da casa, do quarto, da janela.
Há uma menina que anima as noites, tão bela,
e chama a mãe, Carolina, como uma irmã,
pedindo que lhe conte histórias em voz alta.

Há uma menina, no topo da ribalta,
olhando com angústia, calada, intensa,
cegando os olhos de luzes, às luzes da imprensa,
pedindo, por favor, que desliguem as cameras,
fechem os cadernos, os olhos, falem da vida
e vão dormir, tranquilos.

Soneto que Tarda (ou Conselho de Amigo).

Se a ti deflora um novo amor repentino,
supera tua dor e espera tua hora.
Pois se tão tarde a tiveres, ou agora,
esse amor que aflora a ti será bem-vindo.

Se és tu inseguro, dessa forma nefasta,
rejeita teu jeito e aceita o futuro.
Pois se acaso a quiseres, te asseguro,
esse amor, mau-agouro, só de ti a afasta.

Não amarga uma dor que tão cedo deflagra.
O amor que demandas, princípio de mágoa,
te trará um penar que tão tarde não finda.

E por mais que te arda esse amor que te invade,
qualquer dor desvanece, como o sol, na tarde,
mas se pensas que esquece, é manhã ainda.

Sob os Olhos da Arte.

Sob os olhos da arte
que me invade
sob os olhos da arte
que me rende

final fight
happy end

Sob os olhos de águia da arte
que sob as águas me afoga poço adentro.
Sob os olhos da arte
que me atende

final fight
happy end

Sob os olhos da arte
que me prende
os colhões entre a porta
e entre os dentes

final fight
happy end?

Sob os olhos da arte
que me estende a mão na sarjeta
mas me cobre os lençóis, me surpreende
e encerra meus ovos, na gaveta.