sexta-feira, 20 de junho de 2008

Desvelo.

Entre palavras ditas e não ditas,
entre lembranças que agora guardo,
fecho para sempre o enlace que me une a ti,
e as barbáries que te disse na ingenuidade.

Tu, que me amaste com tudo,
que deste semanas de pensamento a mim,
quem sabe anos,
hoje guardo,
hoje me vejo obrigado a guardar.

Não concluo nada nisto que escrevo,
é o pouco que tenho a te dar,
pois não há nada que já não tenha sido dito,
e nem nada que deva mais ser falado.

É sem choro que guardo,
é sem choro que te devo guardar,
sem desvelo, desencanto,
sem nada.

quinta-feira, 19 de junho de 2008

Doença da Boca.

Se é tola a doença da boca,
que assola, consome, corrói,
tão tola é a vida, que louca,
assoma com o sumo e destrói.

Voz rouca d’uma doída crença
abre uma chaga, inflama e dói
traz firme e transforma a doença,
que solta nas chamas se reconstrói.

Dos lábios viscosos lanço a ogiva,
que explode nos lírios, à veia atroz,
pois, forte, esse ardor alastra a vida.

Não some esse ácido, que feroz,
craveja na boca, abre a gengiva,
e lança o seu hálito sobre nós.

Os Conselheiros da Noite.

Às onze da noite deslizo,
na cama com insônia,
sonhando suado
nos vãos espaçados
dos nós da cama.

Dos nós que desato,
no sono do leito,
anjos e diabos voam soltos,
rios e riachos deságuam revoltos
sussurrantes no extremo lá da foz.

Meu corpo transmuta a objeto
na ponta da cama em que me deito,
onde projeto sonhos, desejos, dejetos
e bem perto da cabeça passam
gotas de luzes,
sono abscesso,
dentes podres,
textos pobres,
doces ilusões.

Atrás do pensamento onde corre
esse momento noturno que agarro,
nessa insônia em que acendo um cigarro,
e paro pra pensar nos detalhes do dia,
na viga da rotina encravada
na espinha dorsal do meu corpo
e do corpo de um mundo todo,
cheio de mim, e egoísta,
com medo do escuro
antes de dormir.
Esse dormir que não chega.

Não me deixe aos peixes dos lençóis da cama,
essas ferozes presas de escama ardente,
com o seu veneno pleno e tão feroz de serpente,
e seu calor de delírio que me alimenta a chama.

Não deixe essa insônia,
rio, riacho,
grama e pasto,
acabar com o sonho do menino,
com as angústias sadias, secretas
que correm velozes como um rio.

Me deixe que grite a tais sussurros,
e alto o meu urro atinja a lua,
me solte tão louco nessa vida crua,
nesse mundo calado, cansado, inseguro.

Gritando mudo na cama,
minha veia inflama a tais desvarios,
a saliva das almas deságua em rios,
que saltam da boca,
mínguam entre lençóis manchados,
e se fundem às entranhas da pele,
e aos bichos que dormem
por sob minha nuca,
sob meu teto,
e meu pensamento.

Por entre anjos, se afasta sorrateiro o demo
e se acanha soturno embaixo do travesseiro,
pra dormir, conselheiro, aos meus ouvidos loucos.
Então, de manhã, quando menos espero,
pronto pra um dia que amanhece altivo,
acordo desperto e encerro a noite, vivo,
com a alma tranqüila e endiabrada.

Queimem.

Queimem meu passado envelhecido,
fazendo desgraças com sua dança,
corroído por traças, travoso vício,
devorando solto as paginas de meus livros.

Queimem, afinal, meus livros e lembranças.
Quem necessita de tais memórias?
Queimem, então, a minha memória.
Queimem, é preciso.

Quem me deu mais desse tempo,
e criou Cronos a reger séculos,
a reger dores, e a curá-las
quando bem entende?

Nestas folhas de caderno,
este erro aberto a escárnios,
a represálias de ódio e sarcasmo,
em seus sussurros evoluídos
e gritos de dor,
escrevo frases forçadas,
com suas revoltas tolas.

Queimem meu chão,
meu colchão, meçam a dor.
Que o ardor da prisão,
onde queimam nos pavilhões,
outros tantos colchões,
de revolta, de doenças,
e de crimes de amor,
não me deu liberdade
e criou-me covarde,
nessa ansiedade infame.

Queimem também meu nome
e quem sabe a idade,
pendurada na porta
com essa placa de parto,
e essa mãe quase morta
respirando por tubos de adrenalina,
e sonhando com os sonhos da morfina,
mais belos, com certeza,
que meus sonhos mais banais.

Sem carregar o meu nome, todavia,
queimado a sorte de uma infância tardia,
não vi queimar-me esse fogo,
e às chamas me atirei, de novo,
superando o pesar da covardia.

Mas quem me deu tanta discórdia,
tanta falência múltipla?
Me deixem as canções,
que é o que sobra,
e queimem retratos
colchões, melodramas.
Queimem também minha cama
meio leito, minha história,
e no canto sagrado de um quarto
renasçam num parto esse outro sujeito,
um novo ser já desfeito
de suas mais vivas memórias.

terça-feira, 10 de junho de 2008

Aos Pés da Palavra.

Me perco,
me calo
e me acho
no fosso da lembrança,
no ralo.

Não é apelo o que falo,
é que me esgoto.
Só há desgosto,
esgoto, escória
e asco.
Só há veneno de rato.

Onde me rendo,
é na palavra,
e surpreendo coisas,
pessoas,
levanto voo,
plano por sobre montanhas
e planícies fecundas,
açudes redondos,
regalos.

Do teto saem
palavras,
que tolas caem
num ciclo
resvaladas nos braços,
expulsadas dos pulsos,
distraídas
no colo.

Aos pés da palavra imploro,
que me rogue espírito,
que vença a lembrança,
e veja a vida passar.

Aos pés da palavra isolo,
aflições, terrorismos,
bombas, insônias de grito alto
palavras de salto alto.

É ao pé da palavra onde choro,
e onde o solo encerra a lágrima,
esta palavra, que ácida,
não comove a terra,
nem lavra o chão,
nem planta angústia.

Não move moinhos,
nem sonhos,
não desperta a ira dos loucos,
nem desponta as flores,
de selvas, de campos,
de jardins regados por velhinhos aposentados às seis da manhã.

Eu quis soltos
os pássaros,
com seu cantar rouco
e as pautas de aço onde pousam.

De tanto quer tudo,
e equivocar-me,
obtive um tanto do mundo,
dos homens,
dos cérebros bondosos,
de dos defeitos de tudo.

De tanto querer tudo,
equivoquei-me.