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Entre palavras ditas e não ditas,
entre lembranças que agora guardo,
fecho para sempre o enlace que me une a ti,
e as barbáries que te disse na ingenuidade.
Tu, que me amaste com tudo,
que deste semanas de pensamento a mim,
quem sabe anos,
hoje guardo,
hoje me vejo obrigado a guardar.
Não concluo nada nisto que escrevo,
é o pouco que tenho a te dar,
pois não há nada que já não tenha sido dito,
e nem nada que deva mais ser falado.
É sem choro que guardo,
é sem choro que te devo guardar,
sem desvelo, desencanto,
sem nada.
Se é tola a doença da boca,
que assola, consome, corrói,
tão tola é a vida, que louca,
assoma com o sumo e destrói.
Voz rouca d’uma doída crença
abre uma chaga, inflama e dói
traz firme e transforma a doença,
que solta nas chamas se reconstrói.
Dos lábios viscosos lanço a ogiva,
que explode nos lírios, à veia atroz,
pois, forte, esse ardor alastra a vida.
Não some esse ácido, que feroz,
craveja na boca, abre a gengiva,
e lança o seu hálito sobre nós.
Às onze da noite deslizo,
na cama com insônia,
sonhando suado
nos vãos espaçados
dos nós da cama.
Dos nós que desato,
no sono do leito,
anjos e diabos voam soltos,
rios e riachos deságuam revoltos
sussurrantes no extremo lá da foz.
Meu corpo transmuta a objeto
na ponta da cama em que me deito,
onde projeto sonhos, desejos, dejetos
e bem perto da cabeça passam
gotas de luzes,
sono abscesso,
dentes podres,
textos pobres,
doces ilusões.
Atrás do pensamento onde corre
esse momento noturno que agarro,
nessa insônia em que acendo um cigarro,
e paro pra pensar nos detalhes do dia,
na viga da rotina encravada
na espinha dorsal do meu corpo
e do corpo de um mundo todo,
cheio de mim, e egoísta,
com medo do escuro
antes de dormir.
Esse dormir que não chega.
Não me deixe aos peixes dos lençóis da cama,
essas ferozes presas de escama ardente,
com o seu veneno pleno e tão feroz de serpente,
e seu calor de delírio que me alimenta a chama.
Não deixe essa insônia,
rio, riacho,
grama e pasto,
acabar com o sonho do menino,
com as angústias sadias, secretas
que correm velozes como um rio.
Me deixe que grite a tais sussurros,
e alto o meu urro atinja a lua,
me solte tão louco nessa vida crua,
nesse mundo calado, cansado, inseguro.
Gritando mudo na cama,
minha veia inflama a tais desvarios,
a saliva das almas deságua em rios,
que saltam da boca,
mínguam entre lençóis manchados,
e se fundem às entranhas da pele,
e aos bichos que dormem
por sob minha nuca,
sob meu teto,
e meu pensamento.
Por entre anjos, se afasta sorrateiro o demo
e se acanha soturno embaixo do travesseiro,
pra dormir, conselheiro, aos meus ouvidos loucos.
Então, de manhã, quando menos espero,
pronto pra um dia que amanhece altivo,
acordo desperto e encerro a noite, vivo,
com a alma tranqüila e endiabrada.
Queimem meu passado envelhecido,
fazendo desgraças com sua dança,
corroído por traças, travoso vício,
devorando solto as paginas de meus livros.
Queimem, afinal, meus livros e lembranças.
Quem necessita de tais memórias?
Queimem, então, a minha memória.
Queimem, é preciso.
Quem me deu mais desse tempo,
e criou Cronos a reger séculos,
a reger dores, e a curá-las
quando bem entende?
Nestas folhas de caderno,
este erro aberto a escárnios,
a represálias de ódio e sarcasmo,
em seus sussurros evoluídos
e gritos de dor,
escrevo frases forçadas,
com suas revoltas tolas.
Queimem meu chão,
meu colchão, meçam a dor.
Que o ardor da prisão,
onde queimam nos pavilhões,
outros tantos colchões,
de revolta, de doenças,
e de crimes de amor,
não me deu liberdade
e criou-me covarde,
nessa ansiedade infame.
Queimem também meu nome
e quem sabe a idade,
pendurada na porta
com essa placa de parto,
e essa mãe quase morta
respirando por tubos de adrenalina,
e sonhando com os sonhos da morfina,
mais belos, com certeza,
que meus sonhos mais banais.
Sem carregar o meu nome, todavia,
queimado a sorte de uma infância tardia,
não vi queimar-me esse fogo,
e às chamas me atirei, de novo,
superando o pesar da covardia.
Mas quem me deu tanta discórdia,
tanta falência múltipla?
Me deixem as canções,
que é o que sobra,
e queimem retratos
colchões, melodramas.
Queimem também minha cama
meio leito, minha história,
e no canto sagrado de um quarto
renasçam num parto esse outro sujeito,
um novo ser já desfeito
de suas mais vivas memórias.
Me perco,me caloe me achono fosso da lembrança,no ralo.Não é apelo o que falo,é que me esgoto.Só há desgosto,esgoto, escóriae asco.Só há veneno de rato.Onde me rendo,é na palavra,e surpreendo coisas,pessoas, levanto voo,plano por sobre montanhase planícies fecundas,açudes redondos,regalos.Do teto saem palavras,que tolas caemnum cicloresvaladas nos braços,expulsadas dos pulsos,distraídas no colo.Aos pés da palavra imploro,que me rogue espírito,que vença a lembrança,e veja a vida passar.Aos pés da palavra isolo,aflições, terrorismos,bombas, insônias de grito altopalavras de salto alto.É ao pé da palavra onde choro,e onde o solo encerra a lágrima,esta palavra, que ácida,não comove a terra,nem lavra o chão,nem planta angústia.Não move moinhos,nem sonhos, não desperta a ira dos loucos,nem desponta as flores,de selvas, de campos,de jardins regados por velhinhos aposentados às seis da manhã.Eu quis soltos os pássaros,com seu cantar roucoe as pautas de aço onde pousam.De tanto quer tudo,e equivocar-me,obtive um tanto do mundo,dos homens,dos cérebros bondosos,de dos defeitos de tudo.De tanto querer tudo,equivoquei-me.
Eu vou fazer a barba com pinça,cortar os pulsos de verde.É nesse momento que me arrasto à porta,miro, caótico, meus olhos vermelhose prendo meus dedos nas fendas enferrujadas.Eu vou cortar meus cabelos baixos,como um louco,pois eu acho pouco essa ferida baixa,essa dor calada.É nesse momento que me olho profundo no espelhoe choro, neurótico, uma lágrima que corta.Meu pranto tem sabor de desvelo,saca a própria arma do bolsoe atira uma bala à nuca.Não perco o prazer de olhar o espelho,enigmático, pois é agora que ao atirara chuva nasce, como num resvalar de pingosnas palhas dos coqueiros.Minha lágrima irriga os pensamentosno sul de meu corpo,e alimenta a insônia rouca das madrugadas.Muda como a solidão.Calada.Me faço indagar três semanas de alegriae planto, no mato, no póro, sem alvará,um choro, um pranto, um raio de sol.É nessa hora que mato a lágrima,e que a esperança se espalha, como um vírus.Não olho mais pro espelho, e me esqueço.Minha face me cansa, e meus olhos.Parado de noite penso na vida.De que adianta a liberdade só?Se não há a quem dar no outro dia:"Bom dia, flor do meu dia,bom dia, raio de sol."?
Tenho a mão perto dos olhos
tenho a tristeza que acena ao lado
faz um carinho na cabeça
me beija a nuca
e dorme.
Tenho nas mãos o teu poema afiado
tenho o teu choro, no papel, secando
me molha a pele
me traz um sonho
e some.
Tenho no rosto um dos póros sangrando
tenho um olho profundo que por dentro me olha
me esquece sozinho na cama
me diz duas palavras ao ouvido
me consome.
Tem um mar
e no fundo me afogas.
Tem um espaço
entre eu e ela.
Tem minha cabeça
com anseios torpes.
Minha junção da perna com o joelho
meus ombros e costas
a ponta dos dedos dos pés
a mão cansada de escrever
o coração que se cansa
e o pensamento que dói.
- Eu acho que amar é o único anseio que nos resta hoje em dia, Ana. Não há mais revolução, ninguém acredita na política, poucos querem mudar o mundo, Ana. Então o que nos resta é amar. Pra quê fazer revolução, Ana, se eu posso ter você todos os dias aqui nesse apartamento. O mundo acaba, Ana, quando nos encerramos aqui, nesse "sala e quarto" pago em aluguéis tão razoáveis. Acabou. Esse papo chato de emprego, de empresas júniors, de investimentos pessoais, de marketing avançado, de crescimento econômico e social, ascensão profissional, gastos mensais... Ninguém quer saber mais disso, Ana. O mundo se encerra quando se ama. Não há adolescente hoje que não queira apenas amar e consumir. E consumir já é um ramo que nasce da árvore que é amar, porque qual o sentindo de consumir que não seja o de aparecer para ter, e ter para atrair? Tudo bem que hoje é melhor se ter do que ser, mas isso é errado, Ana. As pessoas de hoje só querem é amar mesmo, é tudo voltado pro amor, mesmo que equivocadamente, é tudo voltado pra ele. Os deputados desejam despir-se de seus paletós, assim como empresários e funcionários públicos. O estudante quer tirar sua farda, e ficar nu para o mundo. E amar. Eu só vejo isso, Ana. Vivemos uma crise existencial de proporções quilométricas, Ana! Você não percebe? As pessoas não são mais, elas vivem para ser algo, e no fim da vida percebem que não foram nada. No fundo elas queriam amar, Ana. Mais do que amaram, mais do que viveram. Todos querem despir-se, se libertar de vez e andarem livres no meio da rua. Você não percebe? Está todo mundo aflito, e a juventude mais ainda, porque está reprimida em sua plenitude de amar, porque ninguém permite a eles, que passaram a vida escutando, que passaram a vida recebendo exigências de melhoras de vida. Falam que é necessário ser alguém a toda hora, mas não sabem que esse ser alguém é, na verdade, se destruir para não ser nada e ter dinheiro para ganhar o mundo. Mas não se ganha o mundo com dinheiro, Ana. O mundo se ganha com amor, esse amor que é tolhido desde da infância, essa pureza que nos é tirada desde quando pequenos. Eu te amo desde pequeno e o mundo se basta somente quando te tenho. E assim segue com o resto das pessoas. Quem quer crescimento de vida quando se tem a quem se dedicar, quando se tem alguém que lhe admira? O mundo se encerra, Ana. O mundo se explode. É por isso que hoje ninguém quer mais revolução, ninguém quer mais política, estão todos ausentes das questões que as envolvem, porque estão todos sozinhos. A solidão aumentou. E quanto mais ela aumenta, mais se sente a necessidade de amar, Ana. E quando estamos sozinhos, desejamos cada vez mais estar menos sozinhos e andar por aí, pela vida, errando, tentando suprir uma vontade cada vez maior de não estar só, e se ter alguém para conversar num fim de tarde. É isso que as pessoas sentem. É por isso que vivem correndo atrás de objetos fúteis, de saídas furadas e de conversas quaisquer. É por que sentem esse desejo de estar com alguém, de se despir, Ana, e de amar. Tudo se resume a isso. - Olha! Tua papa tá pronta.- Poxa, valeu.
- Sabe, Ana, eu não tenho medo da morte.- E porque haveria de ter? Você é tão cheio de si, tão aventureiro.- Não é isso, Ana. É que eu não me imagino sentindo dor ao morrer. Eu acho que a dor, a dor verdadeira que se sente, é só para aqueles que ficam, só para aqueles que continuam na vida e sentem saudade. Eu teria saudade de você, Ana, se não estivesse morto. Estando morto eu não sentiria nada.- Eu não queria que você morresse. Você me faria falta.- Por que te faria falta?- Ah! Sei lá. Você cuida tão bem da casa, lava minhas roupas, minhas calcinhas.- Ha! Engraçada!- Você sabe que não. Eu sentiria falta do seu corpo, das suas conversas bestas. Desse seu olho profundo que insiste em ficar me olhando. Do sorriso que tu me dá quando eu sorrio de volta e dos abraços. Dessas palavras bonitas que tu me diz, insistindo que meus olhos são teus, que minha boca também e que meu nariz é bonito.- Ah! Mas seu nariz é bonito.- Puf! Lá vem tu de novo com essa história.- Eu gosto de você do jeito que você é, Ana.- Não precisa me deixar com vergonha, né?- Mas está vendo você: se eu morresse, a quantidade de coisas que você sentiria falta. Agora me diga: quem morre está sentindo alguma coisa? Quem morre está na pior? Claro que não. Não há sentimentos quando a gente morre, Ana. A não ser antes da morte, mas antes da morte ainda é vida. Nós morremos como se morre uma barata, uma muriçoca. E aí depois é o nada, assim como era o nada pra gente, antes de a gente nascer. Você me entende?- Você também está sendo radical.- Por que?- E as almas? E aquela galera que ama tanto, e de verdade, que volta pra dormir com a pessoa amada, que fica puxando o pé do outro a noite para chamar a atenção?- Isso aí é outra história, Ana. E esse negócio de puxar o pé não tem nada a ver com pessoa amada. Isso é lenda de interior.- Eu acredito em lenda do interior.- Continue acreditando.- Você é cabeça dura, Carlos. Mas eu gosto de você mesmo assim.- Sabe, Ana, eu queria poder ver o fim do mundo, o apocalipse. Eu gosto dessas coisas. Imgina? Os prédios caindo, bolas de fogo no céu, as pessoas correndo. Eu não teria medo de morrer, sabe? Eu teria medo somente de morrer logo e não poder ficar mais um tempo pra ver, de fato, o fim do mundo. Aí seria chato. Poxa, se eu tô no fim do mundo, eu quero ver o mundo acabar, até o final.- Eu hein!- Não, veja só! Eu acho até que penso de uma maneira bem humanitária em relação a isso. Eu sempre fui assim. Sabe quando você se dá mal em uma prova do colégio e deseja, no fundo, que todo mundo se dê mal também pra você ficar na média?- Sei.- Pronto, é mais ou menos assim. Se ocorresse o fim do mundo, e eu pudesse ver, eu ficaria feliz, porque estaria todo mundo morrendo também, e eu indo junto, todos juntos. Seria muito bonito. Era o que me reconfortaria. O fim do mundo não é feio, Ana, porque se morrer todo mundo, ninguém vai sofrer de saudade, ninguém vai sofrer de lembrança, e o homem se acaba de vez.- Que papo estranho, Carlos. De onde tu tirou isso?- Ah! Eu pensei agora. Mas assim, eu não queria estar sozinho no fim do mundo. Eu morreria muito melhor se você estivesse contigo, correndo das bolas de fogo, mergulhando em lagos ferventes, se esquivando dos prédios que caem e dos tremores que racham a terra. - Nossa!- Eu estaria muito melhor com você, Ana. E te amaria profundamente antes do fim do mundo, só pra não sentir saudade, caso a alma depois nos pertube. Eu te amaria sozinho, e você também. E eu iria sentir, que mesmo com o mundo acabando, eu teria o mundo pra mim com você ao meu lado.- Poxa! Que bonitinho!- Gostou? Eu inventei agora.
Pela rua passauma senhora corcunda,um homem de bicicletaque faz a entrega da águae um moço amputado que pedemoedas pra sobreviver.Pela rua passauma menina que atravessa,um cego que pede auxílio,um vendedor de frutase um homem que se interessaem uvas para comer.Na calçada da rua passauma carroça de ambulantevendendo pipocas e doces,bombons e cachorros-quentesalém de batatas-fritaspara quem desejar comprar.No meio da rua passaum gato domesticadoe um cão desorientadoque pára pra coçar as costas,mas busca nos lixos, nas valas,uns restos pra mastigar.Pela rua, na sombra, passauma velhinha doente,que está com os dias contados,e uma mocinha tristonhalargada pelo namoradocom as flores que veio a ganhar.À tardinha, na rua, passauma moça com brinco de argola,um vendedor de pirulitos de tábua,uma mãe que segura a criançae um pobre pedinte que imploraesmolas a mendigar.No fim da tarde, na rua, passaum padre que pede a bênção,dá a esmola ao mendigo,olha pra cruz da igreja, e entrapra rezar a missa da sextae as beatas e as hóstias a voar.Na rua, de noite, passaum amante atrasado, ansiosocom o relógio de ouro no braçoe um perfume de rosas barato,que pôs no cabelo e pescoçopra a amada singela cheirar.Passa na rua, no fim da noiteuma mulher grávida.Havia encontrado o amante,mas agora corre depressa,descobriu que vai ser meninoe precisa ao seu noivo contar.De madrugada, na rua, se ouveos passos de homens estranhos.O medo da menina aumenta,se enrola nas fronhas e sonhos,passou o dia brincandoe agora espera a noite ceder.De madrugada, na rua, 'inda passammeninos distantes, desnudos,despidos de sentimentos,com a fome de um dia inteiro,guardando farelos com fungospro dia que vai nascer.Às quatro da matina invadem,velhinhos que caminham na rua.Despertam a dor do sono dos outros,e correm soltos pra soar os sinos.Acordam os homens que voltamà rua, pra poder viver.
Por sobre a torre sussurra o pátio
e o seu silêncio inerente.
Por sobre a ponte passa inerte
a parte do povo que é podre,
pigarreando perdigotos,
plantando em terra infecunda.
Com o coito calado de caos
a pobre poluição se porta tão tátil,
versáteis as dunas dançam,
sereias de terra, de barro, de morte.
Tanto traçavam tributos desenhos,
que desdenhando acalantos dormiram só.
Por sobre telhados tão quentes
de telhas tabladas de puro amianto,
o pensamento platônico que passa ausente,
passageiro pueril e pungente
tratando torpezas de tratores gastos,
esgotados de escarros de hostis transeuntes.
O pedestre então caminha fulano,
entre outros tantos pedestres que passam na ponte.
O mar, que é fonte flagrante de um rio poluente,
se prostra pautado em suas marés mortas,
enquanto povos pacíficos, que aprisionam preceitos,
tão logo se tornam sujeitos, viris truculentos de antes.
Tratados tortos e portas
de torres tembladas de fungo
e um funesto fedor de mofo,
molha, meloso, um odor nauseabundo,
detendo dois dedos de dor
diante de um Deus de olhar profundo.
Perigo pior penhorado perante o calar do mundo,
da escória da terra esborrou, alerta, este odor severo,
trás o enxofre que transbordou, teatro triste de prata,
preso pego propondo práticas funestas,
pudera protestar, mas sublime, se esquivou e se escondeu na mata.
Não mata num tilintar de pratos, não passa,
tão só como veio, perdoou seu crime.
Há uma menina voandoe permeando imaginários.Solta nos cantos, e leve,enriquecendo noticiários.Há uma menina de alma nobrevoando solta por sobre fios e telhadostransformada em pequeno anjo,passeando por campos de trigo, e por cabeças,tentando entendê-las e reanimá-las.Há uma menina que cansado mundo adulto, da infância, e voapor casas de barro atravessae dança, chorosa criança ao inverso.Sente saudades da mãe,e do pouco carinho que a anima,mas está em outro mundo a meninavoando por sobre todos, e sorrindo.Há uma menina voando por aí,subvertendo no submundo.Anda brincando solta com humanospassando por casas de cimento e alvenaria sólida.Há uma menina tão nova. Voam os cabelos dela,sentada no alto de uma grande colina,anda tão livre e bela, a pequenatrazendo sorrisos singelos de menina.Há uma menina de olhos ponderados,que no auge da inocência,voando por entre pessoas,anda buscando nas valas, nos vales e florestas, um alento.Quem sai brincando lá fora, ao vento?Que grita ao espaço sussurros escassos?Baixinho ela fala aos ouvidos do tempopara que a entendam, menina,para que a entendam.Eu vi tuas lágrimas puras chorareme vi tua alma, sem saber onde chegara,e ainda digo a todoshá uma menina voando,por sobre o nosso inventário,reinventando os horáriose pedindo, por favor, pra que ela voe em paz.Há uma menina que ama, voandolonge da casa, do quarto, da janela.Há uma menina que anima as noites, tão bela,e chama a mãe, Carolina, como uma irmã,pedindo que lhe conte histórias em voz alta.Há uma menina, no topo da ribalta,olhando com angústia, calada, intensa,cegando os olhos de luzes, às luzes da imprensa,pedindo, por favor, que desliguem as cameras,fechem os cadernos, os olhos, falem da vidae vão dormir, tranquilos.
Se a ti deflora um novo amor repentino,supera tua dor e espera tua hora.Pois se tão tarde a tiveres, ou agora,esse amor que aflora a ti será bem-vindo.Se és tu inseguro, dessa forma nefasta,rejeita teu jeito e aceita o futuro.Pois se acaso a quiseres, te asseguro,esse amor, mau-agouro, só de ti a afasta.Não amarga uma dor que tão cedo deflagra.O amor que demandas, princípio de mágoa,te trará um penar que tão tarde não finda.E por mais que te arda esse amor que te invade,qualquer dor desvanece, como o sol, na tarde,mas se pensas que esquece, é manhã ainda.
Sob os olhos da arteque me invadesob os olhos da arteque me rendefinal fighthappy endSob os olhos de águia da arteque sob as águas me afoga poço adentro.Sob os olhos da arteque me atendefinal fighthappy endSob os olhos da arteque me prendeos colhões entre a portae entre os dentesfinal fighthappy end?Sob os olhos da arteque me estende a mão na sarjetamas me cobre os lençóis, me surpreendee encerra meus ovos, na gaveta.
Impregnando meu nome pelos cantos,em pequenas palavras soltas, feitas de vidro,eu me arrisco por sobre telhados e casasde pessoas que não me escutam.Ácidas, imóveis, inertes,elas, ardentes, agora não me ouvem.Por sobre o peso do meu próprio nomee seu cuspir forçado de errese arrotos de crianças pequenassem casa, e inocentes, que agora voam depois de mortas,eu rabisco palavras tolas,que se perdem em significadosde sonhos, de ciúme, libido e quietude.As palavras, em si, nascem sublevadas,como um coro de aves,como um jorro de pensamento roçado de sangue vermelho.Num poema cáustico nasce a vida,embaralhada,atrapalhada,solta.Mas é assim que essa enxurrada se espalha,se gasta, e voa leve,Assim como pensamentos-pássaros.Num poema cáustico eu me percoe me acho.Num poema fantástico de consolo,de encosto, onde pessoas sobre telhadosnão me escutam,onde meninos que voamfalam de loucura,onde a chuva faz som bonitoe o mundo cresce,e se eleva,como minha alma.
Se há tantas dores, Dolores,e tanto mal,por que não pões teu colar de florese sais pra brincar nesse carnaval?Os vãos amores, Dolores,são tão normais,que eu seria pra ti, e antes fosse,um amor a mais.Eu sei que há tantos, Dolores,tantos outros carnavais,mas se hoje à noite não fores,e eu não te ver jamais?Que não chova nesse céu de mil sóis,pra aclarar tuas pétalas de florese eu me proteger nos odoresdos teus cacheados caracóis.
Nessas horas que penso em mim, e que imploro pena por mim,o que me importa o mundo e seus pormenores?O que me importa a vida dos outros e a fome?As invasões de terra, as enchentes, o lixo,a preservação midiática dos recursos naturais hídricos,da floresta Amazônica e a transposição de rios?É o egoísmo, que carrego escrito em minhas mãos,sujo em cada vão das minhas impressões digitais.O que me vale a redenção católica?O bem aos outros, o assistencialismo,se toda essa ajuda é impressa, social-publicitária,pneumatológica, escatológica, estratosférica,e tão igual a esse meu egoísmo.Eu vi a vida escorrer entre os meus dedos sujos de egoísmo,fui tolo e ausente, sério, pálido, sistemático.Não vi esperança, nem ódio.E quem me dera eu tivesse visto o ódio...Não haveria de ser tão doente,cáustico e claustrofóbico.Essa doença é como a de todos os outros,que andam animais como tantos.Ando devorador de pensamentos alheios.Os reescrevo como meus, e os devoro.Em todos os natais solidários.Em todos anuários de votos em carnavais.Em todos os sinais de trânsito,e as fotos sorridentes de candidatos puros.O que me importa, de novo, a dor alheia?Os olhos fechados dos cegos,as batalhas travadas entre os colossais egos de tantos demais.O que resta agora sou eu,com o egoísmo e a ironia,sem a impertinência constante e confusa dos normais.
Quem vê fossa não vê coração,na saída fétida do esgoto,onde eu perdi tempo e desgostoe também a fala dos velhos tarados que passeiam às quatro e [meia da manhã no calçadão. Que absurdo!Meu poema tem cheiro estrúmico,polisistêmico na concepção dos neologismos,passando fetidamente distante do romantismosó pra ter a certeza de se mostrar para todos, mesmo que [equivocadamente, como um texto único.Que idiota eu fui, meu Deusem não ver esse estrume na calçada,em não ter pensado, hoje, em absolutamente nada interessante.Pra que falar agora do odor dos meus sapatos, então?Se há tantos e tantos sufocos ocos e tapetes,tantos cassetes e cacetes, que não temem nem fezes nem ascos.
Já pensei em contar-lhe segredos de meus amores,passar entre os dedos teus cabelos longos.Mas melhor não.Irrelevante.Já pensei em falar-te da vida, assim como um poeta.Alisar tua nuca e soprá-la de leve, com o ar da minha boca,para te fazer cócegas e te causar arrepios. Mas melhor não.Besteira.Tive a idéia de preparar-te uma surpresa no teu aniversário,te mandar aqueles chocolates que gostas e uma cartinha de amor.Mas achei melhor não fazê-la.Seria tolo.Já pensei em falar de mim, do meu carinho,daquela sensação gostosa de olhar bem fundo nos olhose segurar tua mão. Mas melhor não.Seria arriscado.Já pensei em te chamar pra sair num domingo à noite,quando a tristeza bate devagar, mas depois aumenta.Eu te falaria mil coisas e esqueceria do mundo. Mas melhor não.Seria incômodo.Já pensei em te convidar para um jantar aqui em casa,falar da nossa vida, da vida alheia e te apresentar minha família.Mas é melhor não.Eu seria covarde.Pois isso tudo que penso não é pra ti.Tudo que penso em fazer e dizer é por outra.Tudo que penso é lembrança, é resquício.Então eu idealizo.Tento fazer de ti o que não és.Tento fazer de minhas atitudes,as atitudes que poderiam ser pra ti,mas que, infelizmente, não são.
Pra quê curar se minha fratura é leve?Me socorrer sem ter necessidade.Melhor deixar que tudo vire verme,pra ter a terra sua fertilidade.