quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Poesia Urbana II (Ao Cair a Tarde).

Ao jantar,
com jeito
de quem quer
comer,
sem jeito,
pois não há
o que
encontrar
só pedir
de fome.

Julga
mais
tarde
que há
solução
joga
os trapos
ao mar,
se junta
a jangada
que parte
atravessando
a ponte
por sobre
o rio
que dilata.
É onde
o barco
atola,
é onde
estou lá?

A lama
lota
e o calor
esgota
o suor
que espalha
o pêlo
da púbis.

Já caindo
de sol
na ponte,
ao horizonte
poente,
o menino
pede
pois pedir
pouco
é pouco
pior
que roubar.

Passa ali
pelo cais
ao cair
da tarde,
troca
o trocado
por três
notas
de dois.
Tenta
faturar
mais,
antes
de voltar.

Passeia
de brisa
ao mar
quando
o espaço
não há
no ônibus,
pois a solução
é surfar
pra chegar
quem sabe
vivo
na virulenta
casa
de subúrbio
e barro.

Mas
pra quê chegar,
se já
não há
certeza
bem como
não há
sorte?

No fim
da noite
com o fio
da fome
pede
a quem vê
e anda
ante
a ponte,
pára
no parapeito,
e pula
mas somente
pra se distrair
na água
suja do rio.

Poesia Urbana I (Ao Ladrar a Noite).

Nota
ao anoitecer
o dia latir
como quem ladra
ao leo.

Nota
o enxame
o reclame
a saúva
que toma conta
da noite.

Nota
o agouro
que baixa
a demandar a angústia
dos que penam
no escuro.

Nota
a juventude
idiota que cai
na rua
a tocar alto
um trote
noturno
de notas
mortas
aos tímpanos.

Nota
a libido das ruas
o erotismo das calles
e as caladas
putas
da Conselheiro.

Nota
a putrefação
do cheiro
das pontes
a inalar
o suor
o lixo
e a urina
do povo.

Nota
a popular
noite
o espectro
que paira
por sobre
casarões velhos
casebres
pensões.

Nota
além da ponte
e enxerga
pra ver além
do passeio
através
do painel
do carro
o pedinte
a pedir um trocado
limpando
o parabrisa.

Nota
às vezes
esse silêncio
que corta
a veia
fúnebre
da cidade
e fica eternizado
em cada ponto
onde dorme
um pivete,
um pirralho.

Nota
nesse passeio noturno
pra aguçar
o tato
pra provocar
o palato,
o cheiro
da fábrica da Pilar
abre as portas
do carro
pra respirar
a cidade
sem se importar
com o assalto
nem temer
o diurno
nem a fome
que outros sentem
por ali.

Nota
ao anoitecer
o dia latir
e a cidade
uivar sem voz
quando o sol
se vai.

terça-feira, 30 de dezembro de 2008

Pequena.

Eu acho que és, pequena,
um pouco de sombra e luz.
Tens olhos e voz tão mansos,
é lá que me guardo
quando te olho.

Parece que és, pequena,
um pouco do que me salva,
e se tens tu um tanto
dessa meninice boa,
tens também algo que me resguarda
e que, por tolice,
me faz sentir medo em certas horas,
um medo bobo de te parecer pequeno
e teu olhar não ver no meu
mais além do que aquilo que vês
quando eu sorrio
e os olhos ficam pequenos.

Quando eu seguro tua mão,
traduzo um mundo
que pode ser meu
e sinto uma felicidade
de futuro bonito.
Teu afeto transcorre teu corpo
e se transforma em carinho.
Os olhos parecem pedir ressalva
e um abrigo que não nego.

Receio que és, pequena,
um tanto desse meu alento,
um pouco dessa minha calma.

Receio também que já é tarde,
não há como voltar atrás
agora que sei dos teus olhos,
da íris, da boca e dos teus sinais,
agora que reconheço, feliz,
os teus detalhes, tua minúcia,
tua nuca,
tua voz calma
e o sorriso.

Agora parece inevitável,
eu acho que és, pequena,
o meu futuro.

Vinho Tinto.

Se é tanto o vinho, o tinto, risonho,
se é triste esse copo que trinca o sonho,
maior é minha sede,
maior é o desejo de me desregrar.

Se é tamanha a tolice do álcool,
se tomando essa taça me sinto ator,
então represento meu ato alcoólico
pra atar-me a ti.

Tão logo tu tinge teus olhos, louca, e a cara,
e pinta também teus desejos de tequila,
pra só então emaranhar-te de volúpias,
e atuar com tuas pernas em mim.

Portanto é esse vinho que enerva,
e aumenta a vontade que se conserva,
no meu anseio inquietante, de manter-me ébrio,
e assim ferver tua respiração e teus lábios.

É lá de onde parte, meu porto de vícios,
ao parir teus olhares de vinho tinto,
um hiato,
e ao ver, dilatando minhas pupilas numa lata,
teu corpo pungente atuar como num teatro.

Moleque.

Na degradação dolorosa da vida,
o que nos sobra é um rosto
não mais que uma fossa,
manchada de escusas
e ressentimentos.

O que sobe é a dor na cabeça,
desregrada de docilidades,
abandonada numa felicidade
que não houve,
e que nem pode haver.

Não há o que negar
nem renegar num rosto vazio,
em que já não há
o que se enxergar,
nem de perto, nem de longe.

Um rosto que percebe,
na sua condição injusta,
que nada é o amanhã
e que essa dúvida
de viver ou vingar
é o que lhe resta para hoje.

Sem medo de morrer,
sem medo de apanhar.

Arranha-céu.

Subi três degraus
dos arranha-céus,
dolosos troncos falsos na terra,
fincados na dor dos outros,
lustrados em água de sal,
dolorosos céus,
pintados da cor do mal,
no penhasco, na encosta,
no abissal humor,
mal oceânico.

No alto arranha-céu,
penosos degraus
calorosos graus
de um sol tropical
entre os trópicos,
cancerígenos,
capricorniais,
acima do que suportam
os meus olhos normais,
que ardem além
dessas temperaturas.

Aquém demais,
a quem, às quais?
Subi alto às três,
às dez,
subi mais além
em tal viés de escadaria,
ao invés de me ausentar
no inferno,
e pensar, rancoroso,
no medo da morte.

Sem calar minha boca,
ao ceifar o calor nos lábios,
e pôr meus caminhos nos trilhos,
plantando a dor latejante na testa
a resvalar nos cílios.

Parece que subi mais
na minha tez,
ao invés de morrer,
fui percorrer o meu corpo
de vez.
E despolido passeei sem pudor,
sem pensar no pútrido,
no químico,
no orgânico.

Nos degraus,
do decrépito arranha-céu,
eu vi minha vida voar do alto.
Não invejais, no entanto,
essa posição de sol
nem essa sorte,
de ver do alto
a calamidade,
a cidade,
o assalto,
o sublime.

Não inveje, portanto,
essa morte minha,
o salto, o pulo,
a visão de todo
esse mal.
Galgue aos poucos,
teus graus,
teus degraus,
teu céu.

Me acorde, então,
às três, às dez, ou depois,
ao subires mais
e mais.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

Lamento de Onda.

Na marcação do mar,
ritmo vulgar das ondas
a levar e trazer mistérios de mar
que caem consolados no marulho, do céu,
cada cria do mundo,
cada um que sai, a constelar e viver
cai ao naufrágio seguro do mar
no encalhar dos corais, dos cocos, do cais.

Na rotina do mar,
um marco de sal a salgar,
a velar a jangada que vai
a jangar a velada marcha da praia
do Guarujá a Jamaica
do Janga a Maragogi,
a contornar o caldo
da costa calada,
da dor do mar à noite.

Na poeira da praia a arar o vento
rumar o navegar da encosta ao mar
quando amanhecer, desmaiar,
nas manhãs vadias do acordar
é lançar-se à calmaria, e velejar
seja daqui pra lá,
seja pro além-mar
da Península Ibérica ao Mar de Aral.

Ater-me a pescar
e a andar na suave leveza da areia morna,
cansado na preguiça de tempo, de brisa,
ao deleitar-me e deitar-me,
a amainar minha cólera,
colher as velas
e minha enfermidade.

Na marcação do mar, navegar
ao barulho do susto, na polpa do barco,
ao transpirar o mormaço que marca,
ao mergulhar transeunte nas ondas,
num cardume de peixes,
no costume das águas,
um sargaço a deriva
ao cansaço de só
flutuar e nascer.

No amanhecer,
acalento tristonho de mar,
o mar parece esmaecer, ao ver,
o sol se afastando de lá.

domingo, 23 de novembro de 2008

A Vivência do Talvez.

A gente vai vivendo sem ver,
sem nos revelar pensamentos
numa sobriedade mórbida
continuando sem ver.

A gente, que vivendo sem ver,
acaba por cair no vício, no ócio,
sem perceber que há risco
de cair.

A gente vai vivendo sem ver
nós mesmos, sem ver ninguém,
nessa mordida de tempo,
que parece que vai levando,
viagem revelada sem volta.

Vivendo tanto sem ver, desassossego.
que às vezes um sonho cutuca
querendo dizer,
que sublinhei na perda dos sonhos
a saudade do que vai vir
e a do que não vivi.

A gente vai vivendo tanto ser ver,
que, quando acaba vindo um sonho,
na suave significação do talvez,
a gente esquece quem é,
mistura o que sente,
pensa que tá tudo errado
e provém o medo.

E aí quando a gente vê
que tá vivendo sem ver
e enxergando o nada,
ao invés virar o porém
e variar a vida,
angariar amores,
e ir, e ir,
seguimos e vamos,
enganando manadas
e emoções.

A gente vivendo sem ver,
na verdade são vários,
são os seres de mim
que habitam em nós.
Pois essa história de viver assim
não é normal.
O a gente sou eu.
Conflitante, conflituoso,
cáustico, caótico e enigmático,
na vertente de nadar sem enxergar horizonte.

Às vezes, ir vivendo sem ver,

parece melhor,
parece vantagem,
mas talvez não seja.

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

O Olhar Distinto e Novo.

Vou pôr nos meus olhos a esperança, a confiança, maldizer a mágoa.
Vou passear nos meus olhos esse amálgama de sentimento bom,
bem como vivem os pássaros, os potros, os peixes e alguns poetas.

Vou trazer nos olhos dessa ingenuidade a vida que vive sem questionar.
Vou pôr nessa caverna límpida dos olhos aquelas todas lembranças
e no cristalino, na porta, no arco, no arcabouço, aquilo que há pra viver.

E pra dançar, nesse baile de esperança, vou pôr meus olhos e o corpo.
Vou pôr nas lágrimas agrestes de gosto amargo, o suave agridoce, o sol,
e essa vivência, esse deslanchar de choro alegre, de pranto, de pulo.

Vou trazer ainda para pôr nos olhos, e assim enxergar melhor esse tudo,
aquele mar que deságua domingo no balançar alado do vento na onda,
pra mergulhar, depois, nessa felicidade de céu, de areia, de nós.

terça-feira, 4 de novembro de 2008

Poema de Pedra Precisa.

Hoje é jóia
amanhã é jóia
no mais tardar a pérola,
ontem já era.

Hoje é jóia, rubi, esmeralda.
Amanhã é ouro, latente, quilate.
Amanhã é jóia, é jorro, é petróleo.
O futuro é água. O passado é fogo.

Amanhã é jóia, me jogo.
Teu pescoço é pérola,
teu amanhã é preciso,
é precioso.

Hoje é jóia, é rubi, me enrubesço, me alegro,
mas amanhã... amanhã é preciso, é precioso.
Amanhã é ágata, é alabastro, é calcita,
amanhã é jade, é jaspe, é safira.

Amanhã és tu, astuta,
de mármore, de amor, de mar, absoluta
da cor da esmeralda, do amálgama do mar e de tu.

Como o tanto de sol, de raio, de gracejo,
é turmalina amanhã, é turquesa, é topázio,
que, assim como hoje, é jóia.

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

O Sono de Berenice (ou O Choro da Noite).

Com o choro da noite ela dormiu,
assim como pássaros à meia-noite
assim como o mundo, que também dorme,
assim como a vida cheia de conselhos, de erros.

O choro da noite era um sussurro triste,
uma menina calada, inconsciente,
cansada dos arroubos da mãe,
e das frases mal-ditas do pai.

Ela continha uma ânsia de loucos,
um pranto de plantas à meia-noite,
uma suave dureza de sonhos,
um sono leve como um abrigo comprometido.

Mas com esse choro da noite ela dormiu,
assim como os cães,
- que mínguam melancólicos na madrugada -
assim como o descanso dos cegos
- que projetam fatos no seu olhar,
como na tela branca de um cinema mudo.

Na cama, essa menina pequena,
passava seus olhos sobre as roupas do cabide
e imaginava um homem soturno e sério,
altivo em seu magistral chapéu de palha
e num sobretudo surrado e negro.

Dormia guardada essa menina
com o choro da noite à sua vigília,
no escuro do quarto adormecida,
mesmo chorosa, insegura, pequena.

Era, talvez, o escuro que lhe assegurava
o sono, o sonho, o sentimento diurno.
Era, talvez, o escuro que lhe assustava,
nessa casa grande de ecos, de olhos selvagens,
de gatos sorrateiros nos telhados,
nas soleiras, nas portas e combogós.

Acolhia seu sono de respiro pausado
na cama, entre fronhas, lençóis,
e uma boneca de pano amassada
enlaçada nos braços, nas suas lembranças
e memórias ainda tão novas.

O choro da noite tinha um mistério de mar de madrugada,
de águas noturnas, soturnas, paradas,
de águas ausentes, um desejo de medo
ao se banhar sem luz,
num céu de nuvens distantes, ralas, fogosas,
e uma lua fraca, um vento velho,
naquela solidão íngreme da noite,
balançando as palhas de um quiosque
e os cabelos da menina no quarto.

Aquele vento de segredo, de sussurro,
que vinha do temor da beira da praia,
era ele que, zeloso,
trazia de lá o choro da noite,
pra acalentar o sono tranquilo da menina
e cessar o pranto ao tocar seus cílios.

O choro da noite,
aquele acervo cruel de pura intensidade,
era ele que engolia a própria noite,
quem sabe o dia, a tarde, o mundo
e toda aquela dinâmica do mar e do amor.

O choro da noite era aquele som distante
de desabafar a dor no travesseiro,
de desabafar o ódio mordendo os dentes.

Mas esse choro suave, noturno,
engolia os sonhos maus que a menina temia antes de dormir
e o medo daquela escuridão ficava retido nos jardins da casa
nos galhos da goiabeira,
nas minúsculas folhas do flamboyant,
na altura sisuda, e protetora, dos coqueiros.
As formigas também retinham esse medo em suas patas
e o enterravam ao redor dos problemas sérios,
à sombra da noite, nessa brisa suave de mistério.

A noite soprava aquele frio de Julho
e os lençóis se lançavam a flutuar com os brinquedos da menina.
O sono suave, intangível, melancólico e azul da pequena,
que imaginava outros tantos jogos pro dia seguinte
não parou de recontar os minutos de um dia que foi século.

Aquele canto da noite fazia adormecer os objetos
e sorvia no pranto dos outros o mal de todo mundo,
pra que tudo no quarto dormisse bem,
pra que o dia, ainda assim, acordasse belo e preguiçoso,
com os olhos ressacados de quem chorou a noite toda.

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

Cavaleiro.

No subúrbio
do urbano,
à margem do mundo humano,
pessoas.

No complexo
diário urbano.
Na beirada do sonho,
e da linha férrea,
humanos.

Lá no suburbano,
onde parece que pulsa mais intensa a vida
e onde a felicidade repulsa a tristeza,
tem feira de grito, tem apito, buzina,
tem a menina que chora pedindo um brinquedo simples,
tem gente que trabalha nessa badalar da vida
e aviva mais o sentimento da luta.

Mas na ida e na vinda do trem,
tem quem passe por baixo dos trilhos
e vacile.

Talvez na descida da estação,
no corre-corre pra ver quem chega primeiro,
tenha se desvencilhado,
- trem que há descarrilhado -
de uma linha, de uma mão perdida.

João mesmo
se cansou de ser nada
e só levar revés.
Ao invés de viver lamentando
se jogou perto das três
no meio da linha do trem,
depois de fumar dois cigarros
e cheirar um pouco de cola.

É delírio, é delírio.

Já Hugo tenta mudar a vida,
na escola, na música,
no sonho.
A realidade não dificulta o desejo,
pois se espelha no trilho de vida
de quem já pegou o trem.

No subúrbio,
que não é sub-humano,
é mais humano ainda,
tem espaço pra tudo,
gente tristonha, feliz,
alguns trabalham na feira,
na areia, poeira, barulho,
vendendo melancolias,
sapatos, baldes e ferros,
comidas diversas e frutas.

Há os que fogem, os que fingem,
onde os olhos saltam do lugar
e vão parar longe,
mas há também aqueles que vêem tudo passar
e ficam.
A vida se vai assim, junto a essa troca,
junto a esse trem, a esse tudo,
mas a alguns ela nem afeta.

É nesse subúrbio,
de histórias pequenas como uma alma nobre,
de sonhos simples e singelos,
assim como as ruas e o caminhar de todos,
que o sol guarda na silhueta das casas ao longe
a alegria do dia e medo da noite que vai embora,
logo depois de amanhecer de novo.

Poema de Alta Mar I e II

I

Onde miro, ao admirar-te?
E ao advertir-me, onde mirar?
Dónde puedo ponerme a girar
y a bailar para conocerte?

De mí ya he hecho mi parte.
Yo lo sé porque a ti me atiro,
me lanço como se lança uma onda,
me desfaço qual se faz o querer-te.

Calla tu ventre insalubre,

porque allá yo no puedo mirarte.
Tu cuerpo, yo sé, es un arte,
es mala como la olla del mar.

Pero el agua no puede salarte,
puesto que yo te respiro.
Eu sei que teu corpo admiro,
pero no hay como no admirarte.

II

Não há como eu me redimir
do olhar que me arde
e me mantém à parte.

Não sei mais se há tal sigilo,
tal signo de ir
sem mirar a quem parte.

Não sei mais se há tal respiro,
tal grito que pede
ao implorar, e afogar-se.

Tal fogo que queima não há,
pois não há no alto mar,
esse choro, que é água.

Não sei mais se é de salgar-te,
ou se te salvo,
se te afago, ou se olho.

Onde ponho tal verde de mar,
pra te camuflar por amar-te?

Meu mar já é teu e teus olhos,
meus sonhos de Vênus, de milhas.

Onde te salvo em tal ilha,
se tal ilha não há?

Meu mar, tal tormenta a me ressacar,
é vento a atirar tal assombro, tal onda.

Onde, então, pra salvar-me, posso ver-te
e verter esse mar de imaginar-te?

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

No Ar.

Vou lá no infinito,
parto eu pro universo inteiro,
através dessa janela cósmica,
que ilumina o luar de minha cama.

Vou lá no infinito agora,
sem compromisso terreno de voltar.
Avisem se for bonito, meu mito, meu partir,
de ir lá fora navegar e navegar, no ar.

Vou lá fora, através, não há,
na viagem de estrelas,
no mastro do mar,
no astro do barco,
no arco do céu,
no oceano inteiro.
Estou sem pressa de voltar.

Vou lá flutuar, cadente, nessa esfera,
vou explodir como estrela, e iluminar,
vou lá no azul, navegar no mar da vontade,
me desligar desse ar que arde
e rumar pra mais, pra lá, pra onde.

Vou lá navegar e beijar o mar,
como saliva a onda na beira
lamentando o chorar da praia.

Vou lá paquerar com o sol,
e me sentir areia,
viajar com a poeira dos céus,
viver o surgimento de tudo,
e observar de longe a todos
no luar da maré morta,
no solstício do inverno,
no eterno navegar.

Vou lá desprender meus pés
e ascender às estrelas na noite,
nesse azul escuro.
Vou me preservar no futuro
lá no infinito, no ar,
e voltar mais jovem,
pra saber daqui
e de como foi
quando não estive.

Partirei de imediato agora
no cosmos, no karma, no infinito todo,
meu corpo se fez de planeta,
de tudo que fez surgir o universo,
do pó, da terra, de todos os anos.

Vou nessa vontade de fugir,
vou lá navegar nesse mar afora
planar no mar e mergulhar agora,
eu vou fluir como a água,
entre os dedos do tempo.

Parto a viajar então, não outrora senão,
nessa vontade de conhecer o sonho.
Será que no além mar, onde vou lá,
onde os meus pés ponho, será que há?
Vou lá desconhecer,
me conhecer e flutuar, quem sabe,
virar mar de estrelas, e rumar,
virar céu, virar eterno, me eterizar,
e virar tudo no ar.

Vou buscar o mais,
sem mencionar o pós, ou o talvez,
pois não há pressa em regressar.

Posse.

Ainda que estejas solta,
enquanto és mar e tão cheia de sal,
plena neste ar que voas,
onde teu parentesco é o sol.
Ainda que insurjas
e que solva o céu,
ganhe nuvens de chuva
e escuros becos de tempo,
és tão da terra quanto eu,
és minha.

Embora teu olhos,
antes grandes, doces,
focados no absurdo
e nos meus,
ainda que não parem
ainda que entreolhem,
e embora tu flutues,
navegue, divague,
és ainda dessa sonda selvagem
do pensamento meu.

Embora já não tanto,
se aninhem, entretanto,
o teu acalanto só,
ao tempo, ao tudo que és
e a mim, és minha.
Embora tu pertenças
aos poucos, és muito.
E saiba tu de tudo,
dos tolos, dos tontos,
dos deuses, dos revoltos.
Cruzando no mundo és, contanto,
da selva dos olhos,
dos sólidos olhos meus.

Embora os teus braços divaguem
no baile tão simples do adeus
e os olhos, as lágrimas
e as mãos deságuem,
não esqueces, no entanto,
és mãe, és manhã,
és minha.

quinta-feira, 25 de setembro de 2008

Sobre Nós.

Seja aqui ou em Uganda,
a lua que nos ilumina
crava sua luz diária sobre nós.

Sem saber quem somos,
displicentes, descuidados,
essa lua nos atinge aguda, indiferente.

Não sabe sobre mim, sobre nós,
e finge, ciente da existência na terra,
ser bela, como é, e ensaia sua volta.

Não se importa se está cheia
ou se míngua, enfadada, sua paciência.
Essa luz que nos clareia é igual.

Mas seja aqui ou no Nepal, tenho certeza,
onde quer que essa lua esteja, no céu,
longe da poeira dos astros, permanecerá crescente,

com seu poder sobre as marés, a sós,
nos tornando mais iguais, embasbacados,
crescendo soberana sobre nós.

quarta-feira, 17 de setembro de 2008

Janela.

Vejo as luzes da favela
no escuro da janela
são luzes bonitas
são luzes amarelas.

Será que é bonita a favela?
Ou é ilusão da janela?
Um assalto na favela!
Uma morte na janela.

Quem será que matou ela?
Foram assaltantes da favela?
Ou foi ilusão da janela?

*primeira poesia: 29/03/2000

Um Ano.

Hoje Berenice faz um ano. Não nasceu em berço de ouro, nem foi estrela ao longo desse tempo, mas soube me marcar com sua melancolia chorosa, comum, inerente a qualquer pessoa, no entanto. Parece que o sol soube iluminar bem seu início, seu caminho. Hoje Berenice tem três quartos de amor intenso e uma lágrima. Não me interessa quem enxuga seu rosto, me interessa, como pai, aqueles que lhe compreendem.

Hoje, fazendo ela um ano, decidi colocar algo do que escrevi, mas só soube revisitar meu passado. Escolhi, então, minha primeira poesia, na qual não troquei uma vírgula, e que é increlvemente melhor do que muitas poesias que fiz depois. Alguns poemas desse meio percurso, entre o nascimento da minha escrita e o nascimento de Berenice, levam títulos um tanto quanto estranhos (Quando Aquilo; E se, e ela, e não, e ele), que dirá o próprio corpo do texto.

É interessante ver como já previa eu uma Berenice, que só agora, talvez, tenha ido à lua. Ao prever sentimentos futuros, mas de uma escrita ainda muito primária, falei sobre amor sem amar, sobre dor, sem sentir, e não tive medo de rimar palavras confusas ou desconexas. Juntei palavras sem saber o que estava dizendo, como se quisesse treinar, usar das palavras, sem ter motivo para tal. O motivo foi o futuro, desconfio. Foi ver que de algo vazio, pude extrair algo com um pouco mais de sentimento e clareza, posteriormente, às vezes ciente do que estava escrevendo, às vezes não.

No próximo post coloco, então, a primeira poesia que fiz, e que nesse entremeio foi a mais natural de todas, a que soube falar por si só, assim como eu creio que fala a verdadeira poesia.

segunda-feira, 15 de setembro de 2008

Última Voz.

Será que minha doce alma vale a pena,
em conta dessa tua alma tão pequena?

Será que transcorre a estes meus passos mais uma novena?
Será que me acalentas
novamente?

Antes não tiveste tu a mim,
nem eu nunca quisesse haver-te querido.

Será que me encontras,
ou teus olhos fazem de conta
que não existo?

Percebes, então, meu perigo,
que apesar de tudo ainda és abrigo.
Tua voz me dá força,
me levanta.

Em meio a tantas outras vozes,
que não sigo,
a tua ecoa distante, solitária,
desperta minha força, me ativa.

Tua voz, em meus ouvidos, é saliva.
Corre doce, astuciosa, excitante.
Mas tua voz no pensamento,
se torna ácida e ausente.

Minhas veias, meus ouvidos, estão quentes,
da voz que me inspirou esse poema,
e de recordar e recordar,
mas se sentir acordado.

quinta-feira, 11 de setembro de 2008

José e Atílio.

Já não se encaram mais,
não pulam alto dos postes,
não se importam com o mundo.
Não soltam balões de hélio e nem perpassam a neblina,
voando a solta nos céus das cidades caretas
e dos pensamentos cinzas.

Passam desapercebidos e voam imóveis
em rios de veneno velho,
sorvem na boca essas gotas de chuva ácida,
na deriva dos instantes,
no fluxo do pensamento,
na maré morta.

Não pulam alto dos postes,
nem gritam sua felicidade sol a pino.
Não se arriscam na beirada do parapeito da vista,
onde a vertigem, homicida,
ilumina o olhar que não nota,
que é alto esse tempo que corta,
e é baixa essa altura da vida.

Enquanto eles falavam eu sonhava,
me drogava inerte,
absorto de palavras prenhes.
Pílulas pretas, pós, fármacos,
tão cheios de vida e apodrecimento.

Mas parece que esquecem,
que sorvem o ar infame,
tecem, fiam, cosem,
maquinalmente sobrevivem, labutam,
mas não merecem esse dia curto,
esse sentimento parco,
essa vida pouca,
tão cheia de esterco e estrume,
de lama, lamento e chorume.

Parece que o tempo, parceiro distante,
perdeu-se a toa nos contratempos
e foi planar longe,
sem direção,
sem rumo,
sem órbita.

Parece que a vida, prurido e pó,
passou perante os olhos perdida,
encurtada em distrações,
despistes e desperdícios.
Novenas, cadeias e quarentenas que de nada valem.

Parece que a areia, tão cheia de pó,
soltou-se sereia, com suas raízes de pedra,
e foi nadar só.
Desse tempo que anda,
de onde vem e vão ondas,
parece que foram juntos, os dois,
velejar sem o vento,
se afogar, sem o mar.

*baseado em trechos do curta "desavenças".