segunda-feira, 29 de setembro de 2008

No Ar.

Vou lá no infinito,
parto eu pro universo inteiro,
através dessa janela cósmica,
que ilumina o luar de minha cama.

Vou lá no infinito agora,
sem compromisso terreno de voltar.
Avisem se for bonito, meu mito, meu partir,
de ir lá fora navegar e navegar, no ar.

Vou lá fora, através, não há,
na viagem de estrelas,
no mastro do mar,
no astro do barco,
no arco do céu,
no oceano inteiro.
Estou sem pressa de voltar.

Vou lá flutuar, cadente, nessa esfera,
vou explodir como estrela, e iluminar,
vou lá no azul, navegar no mar da vontade,
me desligar desse ar que arde
e rumar pra mais, pra lá, pra onde.

Vou lá navegar e beijar o mar,
como saliva a onda na beira
lamentando o chorar da praia.

Vou lá paquerar com o sol,
e me sentir areia,
viajar com a poeira dos céus,
viver o surgimento de tudo,
e observar de longe a todos
no luar da maré morta,
no solstício do inverno,
no eterno navegar.

Vou lá desprender meus pés
e ascender às estrelas na noite,
nesse azul escuro.
Vou me preservar no futuro
lá no infinito, no ar,
e voltar mais jovem,
pra saber daqui
e de como foi
quando não estive.

Partirei de imediato agora
no cosmos, no karma, no infinito todo,
meu corpo se fez de planeta,
de tudo que fez surgir o universo,
do pó, da terra, de todos os anos.

Vou nessa vontade de fugir,
vou lá navegar nesse mar afora
planar no mar e mergulhar agora,
eu vou fluir como a água,
entre os dedos do tempo.

Parto a viajar então, não outrora senão,
nessa vontade de conhecer o sonho.
Será que no além mar, onde vou lá,
onde os meus pés ponho, será que há?
Vou lá desconhecer,
me conhecer e flutuar, quem sabe,
virar mar de estrelas, e rumar,
virar céu, virar eterno, me eterizar,
e virar tudo no ar.

Vou buscar o mais,
sem mencionar o pós, ou o talvez,
pois não há pressa em regressar.

Posse.

Ainda que estejas solta,
enquanto és mar e tão cheia de sal,
plena neste ar que voas,
onde teu parentesco é o sol.
Ainda que insurjas
e que solva o céu,
ganhe nuvens de chuva
e escuros becos de tempo,
és tão da terra quanto eu,
és minha.

Embora teu olhos,
antes grandes, doces,
focados no absurdo
e nos meus,
ainda que não parem
ainda que entreolhem,
e embora tu flutues,
navegue, divague,
és ainda dessa sonda selvagem
do pensamento meu.

Embora já não tanto,
se aninhem, entretanto,
o teu acalanto só,
ao tempo, ao tudo que és
e a mim, és minha.
Embora tu pertenças
aos poucos, és muito.
E saiba tu de tudo,
dos tolos, dos tontos,
dos deuses, dos revoltos.
Cruzando no mundo és, contanto,
da selva dos olhos,
dos sólidos olhos meus.

Embora os teus braços divaguem
no baile tão simples do adeus
e os olhos, as lágrimas
e as mãos deságuem,
não esqueces, no entanto,
és mãe, és manhã,
és minha.

quinta-feira, 25 de setembro de 2008

Sobre Nós.

Seja aqui ou em Uganda,
a lua que nos ilumina
crava sua luz diária sobre nós.

Sem saber quem somos,
displicentes, descuidados,
essa lua nos atinge aguda, indiferente.

Não sabe sobre mim, sobre nós,
e finge, ciente da existência na terra,
ser bela, como é, e ensaia sua volta.

Não se importa se está cheia
ou se míngua, enfadada, sua paciência.
Essa luz que nos clareia é igual.

Mas seja aqui ou no Nepal, tenho certeza,
onde quer que essa lua esteja, no céu,
longe da poeira dos astros, permanecerá crescente,

com seu poder sobre as marés, a sós,
nos tornando mais iguais, embasbacados,
crescendo soberana sobre nós.

quarta-feira, 17 de setembro de 2008

Janela.

Vejo as luzes da favela
no escuro da janela
são luzes bonitas
são luzes amarelas.

Será que é bonita a favela?
Ou é ilusão da janela?
Um assalto na favela!
Uma morte na janela.

Quem será que matou ela?
Foram assaltantes da favela?
Ou foi ilusão da janela?

*primeira poesia: 29/03/2000

Um Ano.

Hoje Berenice faz um ano. Não nasceu em berço de ouro, nem foi estrela ao longo desse tempo, mas soube me marcar com sua melancolia chorosa, comum, inerente a qualquer pessoa, no entanto. Parece que o sol soube iluminar bem seu início, seu caminho. Hoje Berenice tem três quartos de amor intenso e uma lágrima. Não me interessa quem enxuga seu rosto, me interessa, como pai, aqueles que lhe compreendem.

Hoje, fazendo ela um ano, decidi colocar algo do que escrevi, mas só soube revisitar meu passado. Escolhi, então, minha primeira poesia, na qual não troquei uma vírgula, e que é increlvemente melhor do que muitas poesias que fiz depois. Alguns poemas desse meio percurso, entre o nascimento da minha escrita e o nascimento de Berenice, levam títulos um tanto quanto estranhos (Quando Aquilo; E se, e ela, e não, e ele), que dirá o próprio corpo do texto.

É interessante ver como já previa eu uma Berenice, que só agora, talvez, tenha ido à lua. Ao prever sentimentos futuros, mas de uma escrita ainda muito primária, falei sobre amor sem amar, sobre dor, sem sentir, e não tive medo de rimar palavras confusas ou desconexas. Juntei palavras sem saber o que estava dizendo, como se quisesse treinar, usar das palavras, sem ter motivo para tal. O motivo foi o futuro, desconfio. Foi ver que de algo vazio, pude extrair algo com um pouco mais de sentimento e clareza, posteriormente, às vezes ciente do que estava escrevendo, às vezes não.

No próximo post coloco, então, a primeira poesia que fiz, e que nesse entremeio foi a mais natural de todas, a que soube falar por si só, assim como eu creio que fala a verdadeira poesia.

segunda-feira, 15 de setembro de 2008

Última Voz.

Será que minha doce alma vale a pena,
em conta dessa tua alma tão pequena?

Será que transcorre a estes meus passos mais uma novena?
Será que me acalentas
novamente?

Antes não tiveste tu a mim,
nem eu nunca quisesse haver-te querido.

Será que me encontras,
ou teus olhos fazem de conta
que não existo?

Percebes, então, meu perigo,
que apesar de tudo ainda és abrigo.
Tua voz me dá força,
me levanta.

Em meio a tantas outras vozes,
que não sigo,
a tua ecoa distante, solitária,
desperta minha força, me ativa.

Tua voz, em meus ouvidos, é saliva.
Corre doce, astuciosa, excitante.
Mas tua voz no pensamento,
se torna ácida e ausente.

Minhas veias, meus ouvidos, estão quentes,
da voz que me inspirou esse poema,
e de recordar e recordar,
mas se sentir acordado.

quinta-feira, 11 de setembro de 2008

José e Atílio.

Já não se encaram mais,
não pulam alto dos postes,
não se importam com o mundo.
Não soltam balões de hélio e nem perpassam a neblina,
voando a solta nos céus das cidades caretas
e dos pensamentos cinzas.

Passam desapercebidos e voam imóveis
em rios de veneno velho,
sorvem na boca essas gotas de chuva ácida,
na deriva dos instantes,
no fluxo do pensamento,
na maré morta.

Não pulam alto dos postes,
nem gritam sua felicidade sol a pino.
Não se arriscam na beirada do parapeito da vista,
onde a vertigem, homicida,
ilumina o olhar que não nota,
que é alto esse tempo que corta,
e é baixa essa altura da vida.

Enquanto eles falavam eu sonhava,
me drogava inerte,
absorto de palavras prenhes.
Pílulas pretas, pós, fármacos,
tão cheios de vida e apodrecimento.

Mas parece que esquecem,
que sorvem o ar infame,
tecem, fiam, cosem,
maquinalmente sobrevivem, labutam,
mas não merecem esse dia curto,
esse sentimento parco,
essa vida pouca,
tão cheia de esterco e estrume,
de lama, lamento e chorume.

Parece que o tempo, parceiro distante,
perdeu-se a toa nos contratempos
e foi planar longe,
sem direção,
sem rumo,
sem órbita.

Parece que a vida, prurido e pó,
passou perante os olhos perdida,
encurtada em distrações,
despistes e desperdícios.
Novenas, cadeias e quarentenas que de nada valem.

Parece que a areia, tão cheia de pó,
soltou-se sereia, com suas raízes de pedra,
e foi nadar só.
Desse tempo que anda,
de onde vem e vão ondas,
parece que foram juntos, os dois,
velejar sem o vento,
se afogar, sem o mar.

*baseado em trechos do curta "desavenças".

domingo, 7 de setembro de 2008

Dos Meus Olhares.

Por onde quiser, quereres,
onde estiver, e estares,
lá estou eu, e eles,
meus vãos olhos estúpidos e olhares.

Aos teus pés onde estiveres,
quem quer que sejas ou quem serás,
atrás de dez fatais prazeres banais,
a olhar a sós teus sóis a me iluminares.

Nos vãos lugares em que estiverdes,
que seja eu, que serdes mais,
pra que em minhas veias tu fluíres
e em minhas artérias tu caibais.

Dos meus olhares partem rentes,
pérfidas flechas sãs, mortais,
pois nos teus olhos, através, ausentes,
não passam mares, nem ares, jamais.


Não sedes mais na minha sede,
nem estende a flâmula fugaz,
pois em meus olhares quentes também eres
de sós olhos ferventes e canibais.

Traição.

Se cora-me o mundo diante d'eu,
decora a degola do imundo
ante o submundo meu.

Na aurora da rua tornou-me breu,
quiçá vou pro mundo da lua,
ante o submundo meu.

Me trata agora quem sabe teu,
pois cansei de ser lixo do mundo
ante o submundo meu.

Me joga distante no fosso do céu,
fugido habitante desse parco mundo
ante o submundo meu.

Tesoura-me cortante expondo-me esse sangue meu,
denigre, sutura, esse meu corte profundo
ante o submundo meu.

Me diz dessa amante, antes um amor meu,
fornica, fornece, dá ao mundo todo,
ante o desespero meu.

quinta-feira, 7 de agosto de 2008

A Brincadeira dos Anjos.

A brincadeira dos anjos acabou.
Na terra árida de ilusões diminutas
as paixões poetas se volveram em sonhos,
em anseios planos, pobres e tímidos.

A brincadeira dos anjos acabou mais cedo.
Na veia da inocência e da lembrança
não passa, vermelho, o sangue novo,
nem sorve esse fluxo da nossa necessidade.

A brincadeira dos anjos acabou, infelizmente.
Nessa terra úmida de alusões infecundas,
os papéis e escritos foram todos rasgados,
os acordos de paz, o sentimento de herói.

A brincadeira dos anjos acabou impura.
Devorou em seus braços uma dor tremenda
ao prever um futuro magro de desastres sólidos,
de mães soltas, pais desatentos, filhos renegados.

Os anjos, assim, voltaram da brincadeira.
Negros como os olhos das nuvens apocalípticas,
engendrados em um enredo tosco, sem graça,
com o desânimo nos rostos e a crise nas costas.

A brincadeira dos anjos já não é segura, acabou.
Na altura rasa do solo deixaram a marca do jogo.
Os pés pisados na terra, fecundos de tristeza e lama,
esterco e cinzas, fé e fruto, nostalgia e lágrima.

quarta-feira, 6 de agosto de 2008

Os Olhos da Casa.

Na sala, os ouvidos do mundo
voltados pra televisão.
Os pais, a mãe, o avô, mudos
e o filho no quarto, na solidão.

Chegou atrasado na aula,
perdeu esperança em amor,
em cultura pra preencher o tempo,
e na rotina fincada ao longo dos dias.

Desamarrou os sapatos surrados,
num canto deixou a mochila
e dormiu, com cinco remédios pro sono
e outros três pro esquecimento.

De dia, na sala, todos acordam,
colocam no telejornal da manhã.
O pai, a mãe, o tio de ressaca, o avô, a irmã
tomam um café apressado de meias palavras,
de meios sentimentos engasgados,
junto com as bolachas,
o pão, e o talher.

No quarto ele continua dormindo,
num sono profundo, projétil pedante,
sem diálogo profano e o mundo ausente.
O ouvido do avô encosta na porta trancada,
queria saber o que se passava...
Mas de que adianta isso tudo, pensa ele,
põe os ouvidos no telejornal, na sala, na novela,
que se confundem,
e já saberás onde andam os ouvidos que ouvem essa casa.

Deu meio-dia no quarto
e ele nem havia acordado.
Dormiria mais uma vida em segredo,
se necessário.
Quem saberia do que seus olhos vêem?
Do que se anda pelo mundo
e os passos desabrigados que ele dá na rua?
Os olhos da casa estão virados,
os olhos da casa não enxergam a um palmo.
Todos estão ligados em outras coisas.

A Língua.

A língua lambe o céu da boca.
A língua, lânguida, longínqua,
libera a libido, longe, solta
e pinta o paralelo da lua,
a língua, indistinta, leve, louca.

Aos lábios a língua saliva,
lubrifica lacante a boca alheia,
no lounge do limbo excita a veia,
na luta cavalar que trava lá,
sem lógica, lugar ou moral.

A lascívia dos olhos, que lacrimeja,
a leste dos lábios, e longe da língua.
Aos olhos invade a inveja, que almeja
a longitude dos lábios, sua luxúria,
seu lugar lúbrico e a liberdade do labor.

Ao lavrar sua lástima, deseja a língua,
livrar-se das lágrimas latentes dos olhos,
e o fala dos lugares lúdicos que só ele vê,
da beleza das letras, e o lançar do amor,
que aos lábios e línguas lhe podem tocar.

segunda-feira, 4 de agosto de 2008

O Emanar Invisível d'Alma Urbana

Aos olhos do turista,
que no alto da janela despressurizada do avião,
o Recife que ele avista,
tão tarde, tão cheio de si,
não passa somente de uma Veneza,
pois Veneza, Recife não é.
Recife que cresceu,
sem querer perder o charme de ruas antigas
e deixou suas vielas
com o tamanho das veias,
dos cidadãos.

Aos pés dessa terrinha onde ele pisa
com histórias escritas e enterradas,
de um passado que insiste em perdurar,
dormem sonhos bucólicos,
glórias adormecidas,
revoltas sufocadas,
hoje sufocadas na garganta do povo,
nos sentimentos guardados
em ideais da lama
e do suor do centro.

Com os pés na Boa Vista, ou na Viagem,
essa bagagem de turista não almeja,
a profundidade de um Recife
que vai além do que vê sua vista,
ou do que falam encartes,
iscas de passaporte.
A província recifense é quem vence,
nesse encontro onde todos se conhecem,
um Recife de viela,
que nunca deixou de ser vila.
Nem nunca quis deixar de ser.

Dormem sonhos emanados,
dos orvalhos das árvores do Espinheiro,
e dos telhados envelhecidos de São José,
com seu cheiro de mofo,
com sua madeira podre,
e a alma distinta,
de um povo que a toda hora é nobre,
e a toda hora se diz grande,
espelho onde o mundo mira,
onde o mundo se transforma,
onde o mundo, simplesmente, nasce.

Caos no Cais.

No Cais do Recife,
dei adeus a vida.
A saudade inchou meus pulmões,
e os peixes do oceano sujo,
que amanheceram boiando,
às margens do Capibaribe.

No rio de terra que plantei infecundo,
nasceram palavras à toa,
boiando à deriva,
num mar que Recife não mostrou,
nos arranhões que fizeram minha veia sangrar,
nos tubarões que passeiam à beira do mar.

Se há cais na Aurora,
meu riso desata e chora,
ao ver o Recife inundar.
A água que nasce esse hora,
e brota dos olhos, do pranto,
é um rio desejo formar,
invade minha alma aqui dentro,
com móveis, colchões e recantos,
e os sonhos que eu ia criar.

Se há caos na Aurora,
minha veia dilata agora
de imensidão, de sol.
Se há caos no Apolo
meus nervos fecundam o solo
e fazem junto essa dança, esse passo.
Se há caos na Alfândega,
me embaraço,
perco noção do espaço,
e o cérebro vira almôndega.
Se há caos no Cais de Santa Rita,
nas linhas que enchem a capital
me grita à cabeça o motorista,
e perco a hora do bacurau.

Se o ônibus não transita,
é a Conde da Boa Vista, motorista,
abre essa porta de trás,
abre a janela, não insista,
que o sol não me põe uma hora a mais,
o calor que emana lá da pista,
só me faz desaguar em maus lençóis
e não chego, nem fudendo, antes das dez.

Solidão na Casa Velha.

Quando calei-me de pijama,
vestido de rios de espermas que correm,
foi só na terra que quis transformar-me,
ser a terra
e flutuar.

Me levaram ao mar de pescadores surdos,
cumprindo, no absurdo do infinito do mar,
a tarefa diária, como peixes,
mas esquecendo no quarto a mulher sozinha,
o filho com fome, sobrinho desdentado,
e a sogra morta
na calada da noite.

É como um corte de foice,
a machadada veluda,
a pancada suave no coração.
Me tirem a pele, o luto, a labuta,
mas não tirem esse rio bonito,
esse mar que deságua
lá na calçada de casa,
e vem banhar os meus pés,
tão cheio de lixo,
tão cheio de podre.

Fui eu que abandonei esta terra,
destronei filhos, fiz política.
Na minha vida de rios,
de desejos passageiros
e de sonhos frustrados,
me tornei senhor de mim mesmo,
imperador desta desterrada casa,
tão cheia do cheiro da infância,
tão cheia das brincadeiras
e daquelas conversas no muro,
até a alta meia-noite.

De madrugada não durmo.
Esse cheiro de madeira velha,
esse mal-acordar noturno,
com as lembranças desgastadas, a saudade,
e as paredes vazias.
Não há retrato,
o fato diário nesta casa sou eu,
eu que já fui menino doente,
já fui menino solto, danado,
hoje, sou eu,
desiludido, descontente,
o filho mais novo que guarda
essa casa tão cheia de ontem
com peso da memória de todos,
o peso difícil da família,
o peso pungente e o sacrifício.

É meu esse tato,
esse cheiro,
esse mofo,
esse chão incorreto,
essa terra destruída,
onde não há fantasmas,
onde há pouco habitou,
pai, mãe, irmãos.

Não sei do jardim bonito,
dos coqueiros podados a cada seis meses.
O que me importa os cuidados da casa,
se já não há casa, nem acolhimento?
Não há frondosas árvores,
nem frutas colhidas,
nem aventuras nos pés, nos galhos.
Não há mais natais,
e suas luzes de cores,
só resta essa natureza morta,
a alma morta da casa.
Nos rangidos da porta,
nos gritos diurnos,
nos passos de gatos sorrateiros,
me escondo.

Não há onde ande por aqui,
e não esteja uma imagem, um mar, um rio.
Carregar este fardo é um desafio,
e o pior, me penhoro, me pioro,
pois só o mundo, talvez, abarque,
e eu abarco,
os resquícios e o pó dessa casa velha.

sexta-feira, 20 de junho de 2008

Desvelo.

Entre palavras ditas e não ditas,
entre lembranças que agora guardo,
fecho para sempre o enlace que me une a ti,
e as barbáries que te disse na ingenuidade.

Tu, que me amaste com tudo,
que deste semanas de pensamento a mim,
quem sabe anos,
hoje guardo,
hoje me vejo obrigado a guardar.

Não concluo nada nisto que escrevo,
é o pouco que tenho a te dar,
pois não há nada que já não tenha sido dito,
e nem nada que deva mais ser falado.

É sem choro que guardo,
é sem choro que te devo guardar,
sem desvelo, desencanto,
sem nada.

quinta-feira, 19 de junho de 2008

Doença da Boca.

Se é tola a doença da boca,
que assola, consome, corrói,
tão tola é a vida, que louca,
assoma com o sumo e destrói.

Voz rouca d’uma doída crença
abre uma chaga, inflama e dói
traz firme e transforma a doença,
que solta nas chamas se reconstrói.

Dos lábios viscosos lanço a ogiva,
que explode nos lírios, à veia atroz,
pois, forte, esse ardor alastra a vida.

Não some esse ácido, que feroz,
craveja na boca, abre a gengiva,
e lança o seu hálito sobre nós.

Os Conselheiros da Noite.

Às onze da noite deslizo,
na cama com insônia,
sonhando suado
nos vãos espaçados
dos nós da cama.

Dos nós que desato,
no sono do leito,
anjos e diabos voam soltos,
rios e riachos deságuam revoltos
sussurrantes no extremo lá da foz.

Meu corpo transmuta a objeto
na ponta da cama em que me deito,
onde projeto sonhos, desejos, dejetos
e bem perto da cabeça passam
gotas de luzes,
sono abscesso,
dentes podres,
textos pobres,
doces ilusões.

Atrás do pensamento onde corre
esse momento noturno que agarro,
nessa insônia em que acendo um cigarro,
e paro pra pensar nos detalhes do dia,
na viga da rotina encravada
na espinha dorsal do meu corpo
e do corpo de um mundo todo,
cheio de mim, e egoísta,
com medo do escuro
antes de dormir.
Esse dormir que não chega.

Não me deixe aos peixes dos lençóis da cama,
essas ferozes presas de escama ardente,
com o seu veneno pleno e tão feroz de serpente,
e seu calor de delírio que me alimenta a chama.

Não deixe essa insônia,
rio, riacho,
grama e pasto,
acabar com o sonho do menino,
com as angústias sadias, secretas
que correm velozes como um rio.

Me deixe que grite a tais sussurros,
e alto o meu urro atinja a lua,
me solte tão louco nessa vida crua,
nesse mundo calado, cansado, inseguro.

Gritando mudo na cama,
minha veia inflama a tais desvarios,
a saliva das almas deságua em rios,
que saltam da boca,
mínguam entre lençóis manchados,
e se fundem às entranhas da pele,
e aos bichos que dormem
por sob minha nuca,
sob meu teto,
e meu pensamento.

Por entre anjos, se afasta sorrateiro o demo
e se acanha soturno embaixo do travesseiro,
pra dormir, conselheiro, aos meus ouvidos loucos.
Então, de manhã, quando menos espero,
pronto pra um dia que amanhece altivo,
acordo desperto e encerro a noite, vivo,
com a alma tranqüila e endiabrada.

Queimem.

Queimem meu passado envelhecido,
fazendo desgraças com sua dança,
corroído por traças, travoso vício,
devorando solto as paginas de meus livros.

Queimem, afinal, meus livros e lembranças.
Quem necessita de tais memórias?
Queimem, então, a minha memória.
Queimem, é preciso.

Quem me deu mais desse tempo,
e criou Cronos a reger séculos,
a reger dores, e a curá-las
quando bem entende?

Nestas folhas de caderno,
este erro aberto a escárnios,
a represálias de ódio e sarcasmo,
em seus sussurros evoluídos
e gritos de dor,
escrevo frases forçadas,
com suas revoltas tolas.

Queimem meu chão,
meu colchão, meçam a dor.
Que o ardor da prisão,
onde queimam nos pavilhões,
outros tantos colchões,
de revolta, de doenças,
e de crimes de amor,
não me deu liberdade
e criou-me covarde,
nessa ansiedade infame.

Queimem também meu nome
e quem sabe a idade,
pendurada na porta
com essa placa de parto,
e essa mãe quase morta
respirando por tubos de adrenalina,
e sonhando com os sonhos da morfina,
mais belos, com certeza,
que meus sonhos mais banais.

Sem carregar o meu nome, todavia,
queimado a sorte de uma infância tardia,
não vi queimar-me esse fogo,
e às chamas me atirei, de novo,
superando o pesar da covardia.

Mas quem me deu tanta discórdia,
tanta falência múltipla?
Me deixem as canções,
que é o que sobra,
e queimem retratos
colchões, melodramas.
Queimem também minha cama
meio leito, minha história,
e no canto sagrado de um quarto
renasçam num parto esse outro sujeito,
um novo ser já desfeito
de suas mais vivas memórias.

terça-feira, 10 de junho de 2008

Aos Pés da Palavra.

Me perco,
me calo
e me acho
no fosso da lembrança,
no ralo.

Não é apelo o que falo,
é que me esgoto.
Só há desgosto,
esgoto, escória
e asco.
Só há veneno de rato.

Onde me rendo,
é na palavra,
e surpreendo coisas,
pessoas,
levanto voo,
plano por sobre montanhas
e planícies fecundas,
açudes redondos,
regalos.

Do teto saem
palavras,
que tolas caem
num ciclo
resvaladas nos braços,
expulsadas dos pulsos,
distraídas
no colo.

Aos pés da palavra imploro,
que me rogue espírito,
que vença a lembrança,
e veja a vida passar.

Aos pés da palavra isolo,
aflições, terrorismos,
bombas, insônias de grito alto
palavras de salto alto.

É ao pé da palavra onde choro,
e onde o solo encerra a lágrima,
esta palavra, que ácida,
não comove a terra,
nem lavra o chão,
nem planta angústia.

Não move moinhos,
nem sonhos,
não desperta a ira dos loucos,
nem desponta as flores,
de selvas, de campos,
de jardins regados por velhinhos aposentados às seis da manhã.

Eu quis soltos
os pássaros,
com seu cantar rouco
e as pautas de aço onde pousam.

De tanto quer tudo,
e equivocar-me,
obtive um tanto do mundo,
dos homens,
dos cérebros bondosos,
de dos defeitos de tudo.

De tanto querer tudo,
equivoquei-me.