sexta-feira, 25 de abril de 2008

Papo Funesto de Fim de Tarde.

- Sabe, Ana, eu não tenho medo da morte.
- E porque haveria de ter? Você é tão cheio de si, tão aventureiro.
- Não é isso, Ana. É que eu não me imagino sentindo dor ao morrer. Eu acho que a dor, a dor verdadeira que se sente, é só para aqueles que ficam, só para aqueles que continuam na vida e sentem saudade. Eu teria saudade de você, Ana, se não estivesse morto. Estando morto eu não sentiria nada.
- Eu não queria que você morresse. Você me faria falta.
- Por que te faria falta?
- Ah! Sei lá. Você cuida tão bem da casa, lava minhas roupas, minhas calcinhas.
- Ha! Engraçada!
- Você sabe que não. Eu sentiria falta do seu corpo, das suas conversas bestas. Desse seu olho profundo que insiste em ficar me olhando. Do sorriso que tu me dá quando eu sorrio de volta e dos abraços. Dessas palavras bonitas que tu me diz, insistindo que meus olhos são teus, que minha boca também e que meu nariz é bonito.
- Ah! Mas seu nariz é bonito.
- Puf! Lá vem tu de novo com essa história.
- Eu gosto de você do jeito que você é, Ana.
- Não precisa me deixar com vergonha, né?
- Mas está vendo você: se eu morresse, a quantidade de coisas que você sentiria falta. Agora me diga: quem morre está sentindo alguma coisa? Quem morre está na pior? Claro que não. Não há sentimentos quando a gente morre, Ana. A não ser antes da morte, mas antes da morte ainda é vida. Nós morremos como se morre uma barata, uma muriçoca. E aí depois é o nada, assim como era o nada pra gente, antes de a gente nascer. Você me entende?
- Você também está sendo radical.
- Por que?
- E as almas? E aquela galera que ama tanto, e de verdade, que volta pra dormir com a pessoa amada, que fica puxando o pé do outro a noite para chamar a atenção?
- Isso aí é outra história, Ana. E esse negócio de puxar o pé não tem nada a ver com pessoa amada. Isso é lenda de interior.
- Eu acredito em lenda do interior.
- Continue acreditando.
- Você é cabeça dura, Carlos. Mas eu gosto de você mesmo assim.
- Sabe, Ana, eu queria poder ver o fim do mundo, o apocalipse. Eu gosto dessas coisas. Imgina? Os prédios caindo, bolas de fogo no céu, as pessoas correndo. Eu não teria medo de morrer, sabe? Eu teria medo somente de morrer logo e não poder ficar mais um tempo pra ver, de fato, o fim do mundo. Aí seria chato. Poxa, se eu tô no fim do mundo, eu quero ver o mundo acabar, até o final.
- Eu hein!
- Não, veja só! Eu acho até que penso de uma maneira bem humanitária em relação a isso. Eu sempre fui assim. Sabe quando você se dá mal em uma prova do colégio e deseja, no fundo, que todo mundo se dê mal também pra você ficar na média?
- Sei.
- Pronto, é mais ou menos assim. Se ocorresse o fim do mundo, e eu pudesse ver, eu ficaria feliz, porque estaria todo mundo morrendo também, e eu indo junto, todos juntos. Seria muito bonito. Era o que me reconfortaria. O fim do mundo não é feio, Ana, porque se morrer todo mundo, ninguém vai sofrer de saudade, ninguém vai sofrer de lembrança, e o homem se acaba de vez.
- Que papo estranho, Carlos. De onde tu tirou isso?
- Ah! Eu pensei agora. Mas assim, eu não queria estar sozinho no fim do mundo. Eu morreria muito melhor se você estivesse contigo, correndo das bolas de fogo, mergulhando em lagos ferventes, se esquivando dos prédios que caem e dos tremores que racham a terra.
- Nossa!
- Eu estaria muito melhor com você, Ana. E te amaria profundamente antes do fim do mundo, só pra não sentir saudade, caso a alma depois nos pertube. Eu te amaria sozinho, e você também. E eu iria sentir, que mesmo com o mundo acabando, eu teria o mundo pra mim com você ao meu lado.
- Poxa! Que bonitinho!
- Gostou? Eu inventei agora.

quinta-feira, 24 de abril de 2008

Estrada de Belém.

Pela rua passa
uma senhora corcunda,
um homem de bicicleta
que faz a entrega da água
e um moço amputado que pede

moedas pra sobreviver.

Pela rua passa
uma menina que atravessa,
um cego que pede auxílio,
um vendedor de frutas
e um homem que se interessa

em uvas para comer.

Na calçada da rua passa
uma carroça de ambulante
vendendo pipocas e doces,
bombons e cachorros-quentes
além de batatas-fritas

para quem desejar comprar.

No meio da rua passa
um gato domesticado
e um cão desorientado
que pára pra coçar as costas,
mas busca nos lixos, nas valas,

uns restos pra mastigar.

Pela rua, na sombra, passa
uma velhinha doente,
que está com os dias contados,
e uma mocinha tristonha
largada pelo namorado

com as flores que veio a ganhar.

À tardinha, na rua, passa
uma moça com brinco de argola,
um vendedor de pirulitos de tábua,
uma mãe que segura a criança
e um pobre pedinte que implora

esmolas a mendigar.

No fim da tarde, na rua, passa
um padre que pede a bênção,
dá a esmola ao mendigo,
olha pra cruz da igreja, e entra
pra rezar a missa da sexta

e as beatas e as hóstias a voar.

Na rua, de noite, passa
um amante atrasado, ansioso
com o relógio de ouro no braço
e um perfume de rosas barato,
que pôs no cabelo e pescoço

pra a amada singela cheirar.

Passa na rua, no fim da noite
uma mulher grávida.
Havia encontrado o amante,
mas agora corre depressa,
descobriu que vai ser menino

e precisa ao seu noivo contar.

De madrugada, na rua, se ouve
os passos de homens estranhos.
O medo da menina aumenta,
se enrola nas fronhas e sonhos,
passou o dia brincando

e agora espera a noite ceder.

De madrugada, na rua, 'inda passam
meninos distantes, desnudos,
despidos de sentimentos,
com a fome de um dia inteiro,
guardando farelos com fungos

pro dia que vai nascer.

Às quatro da matina invadem,
velhinhos que caminham na rua.
Despertam a dor do sono dos outros,
e correm soltos pra soar os sinos.
Acordam os homens que voltam

à rua, pra poder viver.

Passageiro Pueril

Por sobre a torre sussurra o pátio
e o seu silêncio inerente.
Por sobre a ponte passa inerte
a parte do povo que é podre,
pigarreando perdigotos,
plantando em terra infecunda.

Com o coito calado de caos
a pobre poluição se porta tão tátil,
versáteis as dunas dançam,
sereias de terra, de barro, de morte.
Tanto traçavam tributos desenhos,
que desdenhando acalantos dormiram só.

Por sobre telhados tão quentes
de telhas tabladas de puro amianto,
o pensamento platônico que passa ausente,
passageiro pueril e pungente
tratando torpezas de tratores gastos,
esgotados de escarros de hostis transeuntes.

O pedestre então caminha fulano,
entre outros tantos pedestres que passam na ponte.
O mar, que é fonte flagrante de um rio poluente,
se prostra pautado em suas marés mortas,
enquanto povos pacíficos, que aprisionam preceitos,
tão logo se tornam sujeitos, viris truculentos de antes.

Tratados tortos e portas
de torres tembladas de fungo
e um funesto fedor de mofo,
molha, meloso, um odor nauseabundo,
detendo dois dedos de dor
diante de um Deus de olhar profundo.

Perigo pior penhorado perante o calar do mundo,
da escória da terra esborrou, alerta, este odor severo,
trás o enxofre que transbordou, teatro triste de prata,
preso pego propondo práticas funestas,
pudera protestar, mas sublime, se esquivou e se escondeu na mata.
Não mata num tilintar de pratos, não passa,
tão só como veio, perdoou seu crime.

quarta-feira, 16 de abril de 2008

O Caso da Menina.

Há uma menina voando
e permeando imaginários.
Solta nos cantos, e leve,
enriquecendo noticiários.

Há uma menina de alma nobre
voando solta por sobre fios e telhados
transformada em pequeno anjo,
passeando por campos de trigo, e por cabeças,
tentando entendê-las e reanimá-las.

Há uma menina que cansa
do mundo adulto, da infância, e voa
por casas de barro atravessa
e dança, chorosa criança ao inverso.

Sente saudades da mãe,
e do pouco carinho que a anima,
mas está em outro mundo a menina
voando por sobre todos, e sorrindo.

Há uma menina voando por aí,
subvertendo no submundo.
Anda brincando solta com humanos
passando por casas de cimento e alvenaria sólida.

Há uma menina tão nova.
Voam os cabelos dela,
sentada no alto de uma grande colina,
anda tão livre e bela, a pequena
trazendo sorrisos singelos de menina.

Há uma menina de olhos ponderados,
que no auge da inocência,
voando por entre pessoas,
anda buscando nas valas, nos vales e florestas, um alento.

Quem sai brincando lá fora, ao vento?
Que grita ao espaço sussurros escassos?
Baixinho ela fala aos ouvidos do tempo
para que a entendam, menina,
para que a entendam.

Eu vi tuas lágrimas puras chorarem
e vi tua alma, sem saber onde chegara,
e ainda digo a todos
há uma menina voando,
por sobre o nosso inventário,
reinventando os horários
e pedindo, por favor, pra que ela voe em paz.

Há uma menina que ama, voando
longe da casa, do quarto, da janela.
Há uma menina que anima as noites, tão bela,
e chama a mãe, Carolina, como uma irmã,
pedindo que lhe conte histórias em voz alta.

Há uma menina, no topo da ribalta,
olhando com angústia, calada, intensa,
cegando os olhos de luzes, às luzes da imprensa,
pedindo, por favor, que desliguem as cameras,
fechem os cadernos, os olhos, falem da vida
e vão dormir, tranquilos.

Soneto que Tarda (ou Conselho de Amigo).

Se a ti deflora um novo amor repentino,
supera tua dor e espera tua hora.
Pois se tão tarde a tiveres, ou agora,
esse amor que aflora a ti será bem-vindo.

Se és tu inseguro, dessa forma nefasta,
rejeita teu jeito e aceita o futuro.
Pois se acaso a quiseres, te asseguro,
esse amor, mau-agouro, só de ti a afasta.

Não amarga uma dor que tão cedo deflagra.
O amor que demandas, princípio de mágoa,
te trará um penar que tão tarde não finda.

E por mais que te arda esse amor que te invade,
qualquer dor desvanece, como o sol, na tarde,
mas se pensas que esquece, é manhã ainda.

Sob os Olhos da Arte.

Sob os olhos da arte
que me invade
sob os olhos da arte
que me rende

final fight
happy end

Sob os olhos de águia da arte
que sob as águas me afoga poço adentro.
Sob os olhos da arte
que me atende

final fight
happy end

Sob os olhos da arte
que me prende
os colhões entre a porta
e entre os dentes

final fight
happy end?

Sob os olhos da arte
que me estende a mão na sarjeta
mas me cobre os lençóis, me surpreende
e encerra meus ovos, na gaveta.

sexta-feira, 4 de abril de 2008

Sobre Telhados.

Impregnando meu nome pelos cantos,
em pequenas palavras soltas, feitas de vidro,
eu me arrisco por sobre telhados e casas
de pessoas que não me escutam.
Ácidas, imóveis, inertes,
elas, ardentes, agora não me ouvem.

Por sobre o peso do meu próprio nome
e seu cuspir forçado de erres
e arrotos de crianças pequenas
sem casa, e inocentes, que agora voam depois de mortas,
eu rabisco palavras tolas,
que se perdem em significados
de sonhos, de ciúme, libido e quietude.

As palavras, em si, nascem sublevadas,
como um coro de aves,
como um jorro de pensamento roçado de sangue vermelho.
Num poema cáustico nasce a vida,
embaralhada,
atrapalhada,
solta.
Mas é assim que essa enxurrada se espalha,
se gasta, e voa leve,
Assim como pensamentos-pássaros.

Num poema cáustico eu me perco
e me acho.
Num poema fantástico de consolo,
de encosto, onde pessoas sobre telhados
não me escutam,
onde meninos que voam
falam de loucura,
onde a chuva faz som bonito
e o mundo cresce,
e se eleva,
como minha alma.

terça-feira, 18 de março de 2008

Dolores.

Se há tantas dores, Dolores,
e tanto mal,
por que não pões teu colar de flores
e sais pra brincar nesse carnaval?

Os vãos amores, Dolores,
são tão normais,
que eu seria pra ti, e antes fosse,
um amor a mais.

Eu sei que há tantos, Dolores,
tantos outros carnavais,
mas se hoje à noite não fores,
e eu não te ver jamais?

Que não chova nesse céu de mil sóis,
pra aclarar tuas pétalas de flores
e eu me proteger nos odores
dos teus cacheados caracóis.

segunda-feira, 17 de março de 2008

Poema Egoísta.

Nessas horas que penso em mim, e que imploro pena por mim,
o que me importa o mundo e seus pormenores?
O que me importa a vida dos outros e a fome?
As invasões de terra, as enchentes, o lixo,
a preservação midiática dos recursos naturais hídricos,
da floresta Amazônica e a transposição de rios?

É o egoísmo, que carrego escrito em minhas mãos,
sujo em cada vão das minhas impressões digitais.
O que me vale a redenção católica?
O bem aos outros, o assistencialismo,
se toda essa ajuda é impressa, social-publicitária,
pneumatológica, escatológica, estratosférica,
e tão igual a esse meu egoísmo.

Eu vi a vida escorrer entre os meus dedos sujos de egoísmo,
fui tolo e ausente, sério, pálido, sistemático.
Não vi esperança, nem ódio.
E quem me dera eu tivesse visto o ódio...
Não haveria de ser tão doente,
cáustico e claustrofóbico.

Essa doença é como a de todos os outros,
que andam animais como tantos.
Ando devorador de pensamentos alheios.
Os reescrevo como meus, e os devoro.
Em todos os natais solidários.
Em todos anuários de votos em carnavais.
Em todos os sinais de trânsito,
e as fotos sorridentes de candidatos puros.

O que me importa, de novo, a dor alheia?
Os olhos fechados dos cegos,
as batalhas travadas entre os colossais egos de tantos demais.
O que resta agora sou eu,
com o egoísmo e a ironia,
sem a impertinência constante e confusa dos normais.

Soneto Estuporado.

Quem vê fossa não vê coração,
na saída fétida do esgoto,
onde eu perdi tempo e desgosto
e também a fala dos velhos tarados que passeiam às quatro e
[meia da manhã no calçadão. Que absurdo!

Meu poema tem cheiro estrúmico,
polisistêmico na concepção dos neologismos,
passando fetidamente distante do romantismo
só pra ter a certeza de se mostrar para todos, mesmo que
[equivocadamente, como um texto único.

Que idiota eu fui, meu Deus
em não ver esse estrume na calçada,
em não ter pensado, hoje, em absolutamente nada interessante.

Pra que falar agora do odor dos meus sapatos, então?
Se há tantos e tantos sufocos ocos e tapetes,
tantos cassetes e cacetes, que não temem nem fezes nem ascos.

domingo, 24 de fevereiro de 2008

Por Outra.

Já pensei em contar-lhe segredos de meus amores,
passar entre os dedos teus cabelos longos.
Mas melhor não.
Irrelevante.

Já pensei em falar-te da vida, assim como um poeta.
Alisar tua nuca e soprá-la de leve, com o ar da minha boca,
para te fazer cócegas e te causar arrepios. Mas melhor não.
Besteira.

Tive a idéia de preparar-te uma surpresa no teu aniversário,
te mandar aqueles chocolates que gostas e uma cartinha de amor.
Mas achei melhor não fazê-la.
Seria tolo.

Já pensei em falar de mim, do meu carinho,
daquela sensação gostosa de olhar bem fundo nos olhos
e segurar tua mão. Mas melhor não.
Seria arriscado.

Já pensei em te chamar pra sair num domingo à noite,
quando a tristeza bate devagar, mas depois aumenta.
Eu te falaria mil coisas e esqueceria do mundo. Mas melhor não.
Seria incômodo.

Já pensei em te convidar para um jantar aqui em casa,
falar da nossa vida, da vida alheia e te apresentar minha família.
Mas é melhor não.
Eu seria covarde.

Pois isso tudo que penso não é pra ti.
Tudo que penso em fazer e dizer é por outra.
Tudo que penso é lembrança, é resquício.
Então eu idealizo.
Tento fazer de ti o que não és.
Tento fazer de minhas atitudes,
as atitudes que poderiam ser pra ti,
mas que, infelizmente, não são.

sábado, 23 de fevereiro de 2008

Estrofe.

Pra quê curar se minha fratura é leve?
Me socorrer sem ter necessidade.
Melhor deixar que tudo vire verme,
pra ter a terra sua fertilidade.

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008

Poema da Madrugada.

Não há raiar do dia, nem rancor
quando os meninos da noite não dormem de madrugada.
O rancor de quem os ignora, neles não há,
mas agora se projeta nos sonhos, ou pesadelos.

Não há rancor no raiar do dia para quem dorme
em caixas de papelão, cavaletes, muros,
casas de pedra e paralelepípedos.
Não há rancor, nem dia, mas só enquanto dormem.

Os meninos pensam em suas mães,
dormem por elas.
Mas o futuro não há.
É o que elas têm dito desde que eles nasceram.

Não há futuro para quem dorme
enquanto homens, de fato, ainda estão acordados.
O menino não pensa de madrugada,
mas ao dia, na injustiça do dia, à luz dos tiranos, eles sentem raiva.

Não há mar, não há. Nem natureza.
Nem há sentido para a vida mesquinha,
gente mesquinha, seres desonestos.
Não há espaço pra sonetos.

Um rato passa entre seus dedos pretos, enquanto dorme.
O menino, de madrugada, acorda.
Ele não come há três dias, e não toma banho há uma semana,
mas é ele quem sente, de madrugada, a podridão do mundo.

Soneto que Lavra.

Se em ti agora revelo um desatino,
espero tua dor e sufoco tua aura.
Pois tão tarde te evoco, minha cara,
que esse amor que degolas, já não é bem-vindo.

Se esperas futuro de um sujeito de farras,
aceita a pancada de um amor inseguro.
Pois se, de fato, me queres e estás em apuros,
não é pulando este muro que me darás tais galhadas.

Acaso quiseres perdão de um amor mal-concebido
já é sabido que não acatarei teu pedido,
porque de mim não te afastas, minha cara.

Já que é tão rara a presença, nesse amor intranquilo,
carrega teus filhos e a crença, que te dão tal como sonhara.
Mas não pões o dinheiro em questão, nem pede pensão, jóia rara.

quarta-feira, 30 de janeiro de 2008

Análise do Tempo.

De tanto vermos correr a lebre de nosso momento
e nem termos a vaga idéia profana
ou, sequer, a chance do arrependimento,
nos vemos à deriva na vida,
onde a fruta, já apodrecida,
é colhida à toa, sem sentimento.

Nós vemos correr esse tempo
e esse tempo, lebre, como experto voa.
Não lebre, sem asa, mas ave,
pois o tempo destoa sem pensar no tempo.
Nós que indagamos como ele, traiçoeiro, age
sem nos importar, inertes, com o valor do que falamos.

Não queremos correr, mas corremos.
Não queremos pensar, mas pensamos.
Pois, na correria do tempo,
seja ele ave ou lebre,
sem querer, mesmo pensando
é por ele que, sendo levados, estamos.

Não quero pensar que ele se liberta.
Desejaria aprisioná-lo se me fosse viável,
mas o tempo é ser humano estranho, improvável
e dele não se há de extrair resposta certa
ou certeza que ache nesse mundo incorreto
ou esse mundo incerto em seus planos e metas.

Estrela Cadente ou Poema Meloso.

É só dizer: - Não te quero.
- Não te quero, e vá embora.
Pra eu não dizer que te espero
e te espero mais, como agora.

É amarga minha hora, meu anseio e penar
que aqui, junto a todos, qualquer um assiste.
Só quero dizer-te para de mim lembrar,
sem me achares tão tolo nessas horas tristes.

É só dizer-me três palavras amargas,
que engolirei eu mesmo minha dor
- Não te quero. Nem quero amar-te.
E irei embora, tão sozinho quanto hoje sou.

Não adianta guardar o que hoje me mostras,
pois não sorris pra mim daquela forma radiante.
É de mim, que eu já sei, que tu não mais gostas,
apesar de querer-te, estrela, assim, cadente.

Não andas tão quente quanto antes
e teus instantes comigo são eternos.
Vês o tempo passando nesse teu inverno,
branco, seco, e ao meu lado, distante.

Pra mim ainda és pérola, estrela,
pois não tenho vergonha de amar-te.
Pena que teu amor é cadente
e com minha rede não há como segurar-te.

Segue teu rumo nessa hora em que choro
e não olhas por mim, que eu mesmo olho.
Não pensas que me abandonas por toda vida,
pois tu, estrela cadente, no céu da minha lembrança ainda brilha.

Verde Amargo.

De ver-te pensei seres tão bela, mas amarga eras.
Eu não sabia.
De verde, tua luz refletia na dança, singela.
Eu sendo criança nem reparei como me olhavas,
esguia,
de trás.

Deram-te asas, em cores rubras,
intensas, como a ti mesma,
de contraste com o verde,
que de tanto verde,
de tanto ver-te,
me envergonhei.

Não soube falar três palavras:
- Como te chamas?
E de ervas verdes te camuflavas,
e te inflamavas tuas chamas.
Tu queimavas, e eu ardia,
como a ti, que fantasiada de tu mesma
sem querer me olhava, e eu não sabia.

Na tua dança singela eu vi sombras de menina,
em teus passos leves e em teus sorrisos suaves.
Pena que o tempo tenha feito esse momento tão breve
e que eu, mesmo falando menos de três palavras,
pensei em ti nesses três dias
mais do que havia antes imaginado,
mais do que havia eu programado.
Pois surgistes na frente de todas,
e tomastes teu lugar, furtiva, displicente,
amarga.

Não quero tolher tuas asas de anjo,
mas se pudesse eu, tomá-la de repente para mim,
como nos sonhos que sonhei nestes dias,
e me fazer conquistá-la, para simplesmente não estar só aqui
neste banco, pensando em amores estranhos
como um marmanjo de vinte anos.
Se eu pudesse tê-la e transformar esse rio que formou-se mar,
pois era apenas um beijo, doce amarga, que ansiava em te dar.

Não me faça verde agora,
nem me faça soar triste o som do dia,
pois quero ver-te, se puder, agora
pra me ver feliz enfim, se isso existe.

Não descobrir ser tu tão amarga e tola
talvez fosse melhor do que ver-te
e estragar o pensamento que tive.
E como ervas és, que nem percebi!
Pois mesmo falando a ti como um amigo,
em conversas tolas onde nem mesmo consigo
ultrapassar o óbvio,
vejo que, de mim, dei demais
e tu em nada de troca me destes,
nem sequer o desejo de ver-me um dia mais
e dar-me uma chance pro que eu dissesse.

Mas vi, doce amarga,
na tua contradição,
um motivo maior pra parar de pensar em ti
e sair por aí, cantando.

Entrelinhas.

Posso até esconder em meus cadernos,
nos escritos que deixo entre folhas espaçadas,
o sentido de um amor repentino.
Mas não sei que fruto é esse,
que pode fazer parte, simplesmente, da imaginação
ou que pode ser criado mais profundamente,
em confins mais humanos do coração.
Para isso não tenho resposta
e resposta, mesmo assim, não deve haver,
pois, amar ou admirar, por assim dizer,
é uma resposta que somente o tempo dará.

Enquanto isso...
eu sigo esperando, ansioso,
como quem não quer esperar.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2008

Dívidas.

Eu tive que vender sete livros de minha estante
e os títulos de renda aculados por minha mãe em dez anos.
Eu tive que vender meu sofá de couro imitado
que grudava as costas quando me deitava sem camisa.

Eu tive que vender a televisão que via
e os jogos que assistia à tarde antes do Faustão.
Eu tive que vender o ingresso que tinha para o clássico
do Sport contra o Náutico e ficar em casa para tentar vender
as camisas falsificadas que havia comprado na Dantas Barreto.

Eu tive que vender meus cd´s piratas
e os originais também.
Eu tive que vender os três quilos de feijão verde
que havia juntado pro meu aniversário na semana que vem.

Eu relutei em vender a poltrona velha que tive até ontem
e que havia ganho do meu avô pouco antes de sua morte.
Mas vendi.

Eu tive que vender meus dias de folga e anos de trabalho
numa empresa lucrativa do ramo de energia elétrica,
cujo nome eu prefiro não citar.

Eu tive que vender alguns móveis do meu quarto,
o criado-mudo e o guarda-roupa.
Agora deixo minhas roupas sobre duas cadeiras de plástico
que peguei emprestadas com a vizinha de baixo,
depois de vende-la algumas camisas novas.

Eu tive que vender o direito de me apaixonar
por uma atendente de telemarketing que morava lá em Candeias.
Eu tive que vender, inclusive, meu celular comprado
naquela mesma ferinha da Dantas Barreto.

Eu tive que vender moedas antigas que minha mãe
guardava em uma caixinha metálica
de biscoitos antigos que se diziam finos.

Eu tive que vender paixões roubadas e dizeres não ditos
a uma menina linda que encontrei em minha adolescência.

Eu tive que vender santinhos de gesso que minha vó
acumulou durante anos e que enfeitavam seus móveis.
Eu tive que negociar com os anjos da guarda minha proteção,
e ainda exigir minha bênção, sem dinheiro vivo nem dízimo
a se pagar mensalmente, e já com atraso, ao paroco da igreja
nova, aqui perto de casa.

Eu tive que jogar a Deus minha sorte pra não vender minha alma
pra um ser errado das histórias da bíblia.

Eu tive que vender botas furadas e sapatos usados
que já haviam sido usados por um de meus tios.

Eu tive que vender o olhar da moça que passou de mãos dadas
com o namorado e olhou sem pudor para mim.
Eu tive que vender os risinhos e desculpas que ela deu pro namorado.

Eu aluguei meus cintos pra serem usados, cada fim de semana,
num evento diferente daqui do bairro.
Eu tive que vender o lixo orgânico e o reciclável
que quase nunca vinham tirar daqui da frente da casa.

Eu tive que vender, com pena e tristeza, as mil cartas apaixonadas
que juntei durantes anos. E com elas, as lágrimas sinceras
de um amor bonito que tive e que guardo até hoje,
se não tiver que vendê-lo também.

Eu tive que vender o amor.

Eu tive que vender as poluções noturnas que tive com a menina
mais linda do colégio.
Eu tive que vender, inclusive, as fotos que tinha com a turma
da oitava série na festa em que bebemos vodka pela primeira vez
e eu peguei a Renatinha, que se dizia CDF, na escada do prédio da Paloma.

Eu tive que vender circuitos elétricos, garrafas de whyski nacional,
bombas de efeito moral, drogas leves e outras coisas que me deixavam ligado.
Eu tive que vender rolhas de vinho e o vinho, envelhecido em garrafas
postas em estantes de madeira que o cupim já havia corroído.
Inclusive as vendi também, não sei como.

Eu tive que vender minha loção pós-barba que comprei com tanto custo
após descobrir que tinha a pele sensível. Frescura, né!?

Eu tive que vender desodorantes vencidos, sopas guardadas
em potes de sorvete, meias com furos na ponta do dedão,
sandálias usadas durantes anos, sacos com sementes vermelhas
que haviam caído de uma árvore estranha, sons e ruídos que havia escutado durante a infância, cheiros e aromas que havia sentido e as lembranças.
As boas lembranças, e as ruins também.

Eu tive que vender tudo que não fiz de bom pra ninguém
e que devia ter feito.
Tive que vender meus sonhos e sabores.

Tive que vender o banho de mar às cinco horas da manhã,
e as aulas de natação às seis.
Tive que vender a sensação gelada da água fria da piscina do clube.

Tive que vender meus sonhos e os da minha mãe, que queria me ver
formado em alguma coisa, mas não dá.
Porque tive que vender minha honra e minhas calças,
pra pagar o vale B do Rio Doce/CDU que pego todos os dias.

domingo, 20 de janeiro de 2008

Colombo

A América nos presenteou com armas, nos deu a guerra.
Vamos engatinhados rumo à paz,
aos sonhos breves e nascimentos tortos.
Dentro de nós estão seres desacordados,
presos ao desconhecido e com medo do mundo,
mas de mansinho voamos

e indagamos a todos nossa essência.