domingo, 23 de novembro de 2008

A Vivência do Talvez.

A gente vai vivendo sem ver,
sem nos revelar pensamentos
numa sobriedade mórbida
continuando sem ver.

A gente, que vivendo sem ver,
acaba por cair no vício, no ócio,
sem perceber que há risco
de cair.

A gente vai vivendo sem ver
nós mesmos, sem ver ninguém,
nessa mordida de tempo,
que parece que vai levando,
viagem revelada sem volta.

Vivendo tanto sem ver, desassossego.
que às vezes um sonho cutuca
querendo dizer,
que sublinhei na perda dos sonhos
a saudade do que vai vir
e a do que não vivi.

A gente vai vivendo tanto ser ver,
que, quando acaba vindo um sonho,
na suave significação do talvez,
a gente esquece quem é,
mistura o que sente,
pensa que tá tudo errado
e provém o medo.

E aí quando a gente vê
que tá vivendo sem ver
e enxergando o nada,
ao invés virar o porém
e variar a vida,
angariar amores,
e ir, e ir,
seguimos e vamos,
enganando manadas
e emoções.

A gente vivendo sem ver,
na verdade são vários,
são os seres de mim
que habitam em nós.
Pois essa história de viver assim
não é normal.
O a gente sou eu.
Conflitante, conflituoso,
cáustico, caótico e enigmático,
na vertente de nadar sem enxergar horizonte.

Às vezes, ir vivendo sem ver,

parece melhor,
parece vantagem,
mas talvez não seja.

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

O Olhar Distinto e Novo.

Vou pôr nos meus olhos a esperança, a confiança, maldizer a mágoa.
Vou passear nos meus olhos esse amálgama de sentimento bom,
bem como vivem os pássaros, os potros, os peixes e alguns poetas.

Vou trazer nos olhos dessa ingenuidade a vida que vive sem questionar.
Vou pôr nessa caverna límpida dos olhos aquelas todas lembranças
e no cristalino, na porta, no arco, no arcabouço, aquilo que há pra viver.

E pra dançar, nesse baile de esperança, vou pôr meus olhos e o corpo.
Vou pôr nas lágrimas agrestes de gosto amargo, o suave agridoce, o sol,
e essa vivência, esse deslanchar de choro alegre, de pranto, de pulo.

Vou trazer ainda para pôr nos olhos, e assim enxergar melhor esse tudo,
aquele mar que deságua domingo no balançar alado do vento na onda,
pra mergulhar, depois, nessa felicidade de céu, de areia, de nós.

terça-feira, 4 de novembro de 2008

Poema de Pedra Precisa.

Hoje é jóia
amanhã é jóia
no mais tardar a pérola,
ontem já era.

Hoje é jóia, rubi, esmeralda.
Amanhã é ouro, latente, quilate.
Amanhã é jóia, é jorro, é petróleo.
O futuro é água. O passado é fogo.

Amanhã é jóia, me jogo.
Teu pescoço é pérola,
teu amanhã é preciso,
é precioso.

Hoje é jóia, é rubi, me enrubesço, me alegro,
mas amanhã... amanhã é preciso, é precioso.
Amanhã é ágata, é alabastro, é calcita,
amanhã é jade, é jaspe, é safira.

Amanhã és tu, astuta,
de mármore, de amor, de mar, absoluta
da cor da esmeralda, do amálgama do mar e de tu.

Como o tanto de sol, de raio, de gracejo,
é turmalina amanhã, é turquesa, é topázio,
que, assim como hoje, é jóia.

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

O Sono de Berenice (ou O Choro da Noite).

Com o choro da noite ela dormiu,
assim como pássaros à meia-noite
assim como o mundo, que também dorme,
assim como a vida cheia de conselhos, de erros.

O choro da noite era um sussurro triste,
uma menina calada, inconsciente,
cansada dos arroubos da mãe,
e das frases mal-ditas do pai.

Ela continha uma ânsia de loucos,
um pranto de plantas à meia-noite,
uma suave dureza de sonhos,
um sono leve como um abrigo comprometido.

Mas com esse choro da noite ela dormiu,
assim como os cães,
- que mínguam melancólicos na madrugada -
assim como o descanso dos cegos
- que projetam fatos no seu olhar,
como na tela branca de um cinema mudo.

Na cama, essa menina pequena,
passava seus olhos sobre as roupas do cabide
e imaginava um homem soturno e sério,
altivo em seu magistral chapéu de palha
e num sobretudo surrado e negro.

Dormia guardada essa menina
com o choro da noite à sua vigília,
no escuro do quarto adormecida,
mesmo chorosa, insegura, pequena.

Era, talvez, o escuro que lhe assegurava
o sono, o sonho, o sentimento diurno.
Era, talvez, o escuro que lhe assustava,
nessa casa grande de ecos, de olhos selvagens,
de gatos sorrateiros nos telhados,
nas soleiras, nas portas e combogós.

Acolhia seu sono de respiro pausado
na cama, entre fronhas, lençóis,
e uma boneca de pano amassada
enlaçada nos braços, nas suas lembranças
e memórias ainda tão novas.

O choro da noite tinha um mistério de mar de madrugada,
de águas noturnas, soturnas, paradas,
de águas ausentes, um desejo de medo
ao se banhar sem luz,
num céu de nuvens distantes, ralas, fogosas,
e uma lua fraca, um vento velho,
naquela solidão íngreme da noite,
balançando as palhas de um quiosque
e os cabelos da menina no quarto.

Aquele vento de segredo, de sussurro,
que vinha do temor da beira da praia,
era ele que, zeloso,
trazia de lá o choro da noite,
pra acalentar o sono tranquilo da menina
e cessar o pranto ao tocar seus cílios.

O choro da noite,
aquele acervo cruel de pura intensidade,
era ele que engolia a própria noite,
quem sabe o dia, a tarde, o mundo
e toda aquela dinâmica do mar e do amor.

O choro da noite era aquele som distante
de desabafar a dor no travesseiro,
de desabafar o ódio mordendo os dentes.

Mas esse choro suave, noturno,
engolia os sonhos maus que a menina temia antes de dormir
e o medo daquela escuridão ficava retido nos jardins da casa
nos galhos da goiabeira,
nas minúsculas folhas do flamboyant,
na altura sisuda, e protetora, dos coqueiros.
As formigas também retinham esse medo em suas patas
e o enterravam ao redor dos problemas sérios,
à sombra da noite, nessa brisa suave de mistério.

A noite soprava aquele frio de Julho
e os lençóis se lançavam a flutuar com os brinquedos da menina.
O sono suave, intangível, melancólico e azul da pequena,
que imaginava outros tantos jogos pro dia seguinte
não parou de recontar os minutos de um dia que foi século.

Aquele canto da noite fazia adormecer os objetos
e sorvia no pranto dos outros o mal de todo mundo,
pra que tudo no quarto dormisse bem,
pra que o dia, ainda assim, acordasse belo e preguiçoso,
com os olhos ressacados de quem chorou a noite toda.

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

Cavaleiro.

No subúrbio
do urbano,
à margem do mundo humano,
pessoas.

No complexo
diário urbano.
Na beirada do sonho,
e da linha férrea,
humanos.

Lá no suburbano,
onde parece que pulsa mais intensa a vida
e onde a felicidade repulsa a tristeza,
tem feira de grito, tem apito, buzina,
tem a menina que chora pedindo um brinquedo simples,
tem gente que trabalha nessa badalar da vida
e aviva mais o sentimento da luta.

Mas na ida e na vinda do trem,
tem quem passe por baixo dos trilhos
e vacile.

Talvez na descida da estação,
no corre-corre pra ver quem chega primeiro,
tenha se desvencilhado,
- trem que há descarrilhado -
de uma linha, de uma mão perdida.

João mesmo
se cansou de ser nada
e só levar revés.
Ao invés de viver lamentando
se jogou perto das três
no meio da linha do trem,
depois de fumar dois cigarros
e cheirar um pouco de cola.

É delírio, é delírio.

Já Hugo tenta mudar a vida,
na escola, na música,
no sonho.
A realidade não dificulta o desejo,
pois se espelha no trilho de vida
de quem já pegou o trem.

No subúrbio,
que não é sub-humano,
é mais humano ainda,
tem espaço pra tudo,
gente tristonha, feliz,
alguns trabalham na feira,
na areia, poeira, barulho,
vendendo melancolias,
sapatos, baldes e ferros,
comidas diversas e frutas.

Há os que fogem, os que fingem,
onde os olhos saltam do lugar
e vão parar longe,
mas há também aqueles que vêem tudo passar
e ficam.
A vida se vai assim, junto a essa troca,
junto a esse trem, a esse tudo,
mas a alguns ela nem afeta.

É nesse subúrbio,
de histórias pequenas como uma alma nobre,
de sonhos simples e singelos,
assim como as ruas e o caminhar de todos,
que o sol guarda na silhueta das casas ao longe
a alegria do dia e medo da noite que vai embora,
logo depois de amanhecer de novo.

Poema de Alta Mar I e II

I

Onde miro, ao admirar-te?
E ao advertir-me, onde mirar?
Dónde puedo ponerme a girar
y a bailar para conocerte?

De mí ya he hecho mi parte.
Yo lo sé porque a ti me atiro,
me lanço como se lança uma onda,
me desfaço qual se faz o querer-te.

Calla tu ventre insalubre,

porque allá yo no puedo mirarte.
Tu cuerpo, yo sé, es un arte,
es mala como la olla del mar.

Pero el agua no puede salarte,
puesto que yo te respiro.
Eu sei que teu corpo admiro,
pero no hay como no admirarte.

II

Não há como eu me redimir
do olhar que me arde
e me mantém à parte.

Não sei mais se há tal sigilo,
tal signo de ir
sem mirar a quem parte.

Não sei mais se há tal respiro,
tal grito que pede
ao implorar, e afogar-se.

Tal fogo que queima não há,
pois não há no alto mar,
esse choro, que é água.

Não sei mais se é de salgar-te,
ou se te salvo,
se te afago, ou se olho.

Onde ponho tal verde de mar,
pra te camuflar por amar-te?

Meu mar já é teu e teus olhos,
meus sonhos de Vênus, de milhas.

Onde te salvo em tal ilha,
se tal ilha não há?

Meu mar, tal tormenta a me ressacar,
é vento a atirar tal assombro, tal onda.

Onde, então, pra salvar-me, posso ver-te
e verter esse mar de imaginar-te?

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

No Ar.

Vou lá no infinito,
parto eu pro universo inteiro,
através dessa janela cósmica,
que ilumina o luar de minha cama.

Vou lá no infinito agora,
sem compromisso terreno de voltar.
Avisem se for bonito, meu mito, meu partir,
de ir lá fora navegar e navegar, no ar.

Vou lá fora, através, não há,
na viagem de estrelas,
no mastro do mar,
no astro do barco,
no arco do céu,
no oceano inteiro.
Estou sem pressa de voltar.

Vou lá flutuar, cadente, nessa esfera,
vou explodir como estrela, e iluminar,
vou lá no azul, navegar no mar da vontade,
me desligar desse ar que arde
e rumar pra mais, pra lá, pra onde.

Vou lá navegar e beijar o mar,
como saliva a onda na beira
lamentando o chorar da praia.

Vou lá paquerar com o sol,
e me sentir areia,
viajar com a poeira dos céus,
viver o surgimento de tudo,
e observar de longe a todos
no luar da maré morta,
no solstício do inverno,
no eterno navegar.

Vou lá desprender meus pés
e ascender às estrelas na noite,
nesse azul escuro.
Vou me preservar no futuro
lá no infinito, no ar,
e voltar mais jovem,
pra saber daqui
e de como foi
quando não estive.

Partirei de imediato agora
no cosmos, no karma, no infinito todo,
meu corpo se fez de planeta,
de tudo que fez surgir o universo,
do pó, da terra, de todos os anos.

Vou nessa vontade de fugir,
vou lá navegar nesse mar afora
planar no mar e mergulhar agora,
eu vou fluir como a água,
entre os dedos do tempo.

Parto a viajar então, não outrora senão,
nessa vontade de conhecer o sonho.
Será que no além mar, onde vou lá,
onde os meus pés ponho, será que há?
Vou lá desconhecer,
me conhecer e flutuar, quem sabe,
virar mar de estrelas, e rumar,
virar céu, virar eterno, me eterizar,
e virar tudo no ar.

Vou buscar o mais,
sem mencionar o pós, ou o talvez,
pois não há pressa em regressar.

Posse.

Ainda que estejas solta,
enquanto és mar e tão cheia de sal,
plena neste ar que voas,
onde teu parentesco é o sol.
Ainda que insurjas
e que solva o céu,
ganhe nuvens de chuva
e escuros becos de tempo,
és tão da terra quanto eu,
és minha.

Embora teu olhos,
antes grandes, doces,
focados no absurdo
e nos meus,
ainda que não parem
ainda que entreolhem,
e embora tu flutues,
navegue, divague,
és ainda dessa sonda selvagem
do pensamento meu.

Embora já não tanto,
se aninhem, entretanto,
o teu acalanto só,
ao tempo, ao tudo que és
e a mim, és minha.
Embora tu pertenças
aos poucos, és muito.
E saiba tu de tudo,
dos tolos, dos tontos,
dos deuses, dos revoltos.
Cruzando no mundo és, contanto,
da selva dos olhos,
dos sólidos olhos meus.

Embora os teus braços divaguem
no baile tão simples do adeus
e os olhos, as lágrimas
e as mãos deságuem,
não esqueces, no entanto,
és mãe, és manhã,
és minha.

quinta-feira, 25 de setembro de 2008

Sobre Nós.

Seja aqui ou em Uganda,
a lua que nos ilumina
crava sua luz diária sobre nós.

Sem saber quem somos,
displicentes, descuidados,
essa lua nos atinge aguda, indiferente.

Não sabe sobre mim, sobre nós,
e finge, ciente da existência na terra,
ser bela, como é, e ensaia sua volta.

Não se importa se está cheia
ou se míngua, enfadada, sua paciência.
Essa luz que nos clareia é igual.

Mas seja aqui ou no Nepal, tenho certeza,
onde quer que essa lua esteja, no céu,
longe da poeira dos astros, permanecerá crescente,

com seu poder sobre as marés, a sós,
nos tornando mais iguais, embasbacados,
crescendo soberana sobre nós.

quarta-feira, 17 de setembro de 2008

Janela.

Vejo as luzes da favela
no escuro da janela
são luzes bonitas
são luzes amarelas.

Será que é bonita a favela?
Ou é ilusão da janela?
Um assalto na favela!
Uma morte na janela.

Quem será que matou ela?
Foram assaltantes da favela?
Ou foi ilusão da janela?

*primeira poesia: 29/03/2000

Um Ano.

Hoje Berenice faz um ano. Não nasceu em berço de ouro, nem foi estrela ao longo desse tempo, mas soube me marcar com sua melancolia chorosa, comum, inerente a qualquer pessoa, no entanto. Parece que o sol soube iluminar bem seu início, seu caminho. Hoje Berenice tem três quartos de amor intenso e uma lágrima. Não me interessa quem enxuga seu rosto, me interessa, como pai, aqueles que lhe compreendem.

Hoje, fazendo ela um ano, decidi colocar algo do que escrevi, mas só soube revisitar meu passado. Escolhi, então, minha primeira poesia, na qual não troquei uma vírgula, e que é increlvemente melhor do que muitas poesias que fiz depois. Alguns poemas desse meio percurso, entre o nascimento da minha escrita e o nascimento de Berenice, levam títulos um tanto quanto estranhos (Quando Aquilo; E se, e ela, e não, e ele), que dirá o próprio corpo do texto.

É interessante ver como já previa eu uma Berenice, que só agora, talvez, tenha ido à lua. Ao prever sentimentos futuros, mas de uma escrita ainda muito primária, falei sobre amor sem amar, sobre dor, sem sentir, e não tive medo de rimar palavras confusas ou desconexas. Juntei palavras sem saber o que estava dizendo, como se quisesse treinar, usar das palavras, sem ter motivo para tal. O motivo foi o futuro, desconfio. Foi ver que de algo vazio, pude extrair algo com um pouco mais de sentimento e clareza, posteriormente, às vezes ciente do que estava escrevendo, às vezes não.

No próximo post coloco, então, a primeira poesia que fiz, e que nesse entremeio foi a mais natural de todas, a que soube falar por si só, assim como eu creio que fala a verdadeira poesia.

segunda-feira, 15 de setembro de 2008

Última Voz.

Será que minha doce alma vale a pena,
em conta dessa tua alma tão pequena?

Será que transcorre a estes meus passos mais uma novena?
Será que me acalentas
novamente?

Antes não tiveste tu a mim,
nem eu nunca quisesse haver-te querido.

Será que me encontras,
ou teus olhos fazem de conta
que não existo?

Percebes, então, meu perigo,
que apesar de tudo ainda és abrigo.
Tua voz me dá força,
me levanta.

Em meio a tantas outras vozes,
que não sigo,
a tua ecoa distante, solitária,
desperta minha força, me ativa.

Tua voz, em meus ouvidos, é saliva.
Corre doce, astuciosa, excitante.
Mas tua voz no pensamento,
se torna ácida e ausente.

Minhas veias, meus ouvidos, estão quentes,
da voz que me inspirou esse poema,
e de recordar e recordar,
mas se sentir acordado.

quinta-feira, 11 de setembro de 2008

José e Atílio.

Já não se encaram mais,
não pulam alto dos postes,
não se importam com o mundo.
Não soltam balões de hélio e nem perpassam a neblina,
voando a solta nos céus das cidades caretas
e dos pensamentos cinzas.

Passam desapercebidos e voam imóveis
em rios de veneno velho,
sorvem na boca essas gotas de chuva ácida,
na deriva dos instantes,
no fluxo do pensamento,
na maré morta.

Não pulam alto dos postes,
nem gritam sua felicidade sol a pino.
Não se arriscam na beirada do parapeito da vista,
onde a vertigem, homicida,
ilumina o olhar que não nota,
que é alto esse tempo que corta,
e é baixa essa altura da vida.

Enquanto eles falavam eu sonhava,
me drogava inerte,
absorto de palavras prenhes.
Pílulas pretas, pós, fármacos,
tão cheios de vida e apodrecimento.

Mas parece que esquecem,
que sorvem o ar infame,
tecem, fiam, cosem,
maquinalmente sobrevivem, labutam,
mas não merecem esse dia curto,
esse sentimento parco,
essa vida pouca,
tão cheia de esterco e estrume,
de lama, lamento e chorume.

Parece que o tempo, parceiro distante,
perdeu-se a toa nos contratempos
e foi planar longe,
sem direção,
sem rumo,
sem órbita.

Parece que a vida, prurido e pó,
passou perante os olhos perdida,
encurtada em distrações,
despistes e desperdícios.
Novenas, cadeias e quarentenas que de nada valem.

Parece que a areia, tão cheia de pó,
soltou-se sereia, com suas raízes de pedra,
e foi nadar só.
Desse tempo que anda,
de onde vem e vão ondas,
parece que foram juntos, os dois,
velejar sem o vento,
se afogar, sem o mar.

*baseado em trechos do curta "desavenças".

domingo, 7 de setembro de 2008

Dos Meus Olhares.

Por onde quiser, quereres,
onde estiver, e estares,
lá estou eu, e eles,
meus vãos olhos estúpidos e olhares.

Aos teus pés onde estiveres,
quem quer que sejas ou quem serás,
atrás de dez fatais prazeres banais,
a olhar a sós teus sóis a me iluminares.

Nos vãos lugares em que estiverdes,
que seja eu, que serdes mais,
pra que em minhas veias tu fluíres
e em minhas artérias tu caibais.

Dos meus olhares partem rentes,
pérfidas flechas sãs, mortais,
pois nos teus olhos, através, ausentes,
não passam mares, nem ares, jamais.


Não sedes mais na minha sede,
nem estende a flâmula fugaz,
pois em meus olhares quentes também eres
de sós olhos ferventes e canibais.

Traição.

Se cora-me o mundo diante d'eu,
decora a degola do imundo
ante o submundo meu.

Na aurora da rua tornou-me breu,
quiçá vou pro mundo da lua,
ante o submundo meu.

Me trata agora quem sabe teu,
pois cansei de ser lixo do mundo
ante o submundo meu.

Me joga distante no fosso do céu,
fugido habitante desse parco mundo
ante o submundo meu.

Tesoura-me cortante expondo-me esse sangue meu,
denigre, sutura, esse meu corte profundo
ante o submundo meu.

Me diz dessa amante, antes um amor meu,
fornica, fornece, dá ao mundo todo,
ante o desespero meu.

quinta-feira, 7 de agosto de 2008

A Brincadeira dos Anjos.

A brincadeira dos anjos acabou.
Na terra árida de ilusões diminutas
as paixões poetas se volveram em sonhos,
em anseios planos, pobres e tímidos.

A brincadeira dos anjos acabou mais cedo.
Na veia da inocência e da lembrança
não passa, vermelho, o sangue novo,
nem sorve esse fluxo da nossa necessidade.

A brincadeira dos anjos acabou, infelizmente.
Nessa terra úmida de alusões infecundas,
os papéis e escritos foram todos rasgados,
os acordos de paz, o sentimento de herói.

A brincadeira dos anjos acabou impura.
Devorou em seus braços uma dor tremenda
ao prever um futuro magro de desastres sólidos,
de mães soltas, pais desatentos, filhos renegados.

Os anjos, assim, voltaram da brincadeira.
Negros como os olhos das nuvens apocalípticas,
engendrados em um enredo tosco, sem graça,
com o desânimo nos rostos e a crise nas costas.

A brincadeira dos anjos já não é segura, acabou.
Na altura rasa do solo deixaram a marca do jogo.
Os pés pisados na terra, fecundos de tristeza e lama,
esterco e cinzas, fé e fruto, nostalgia e lágrima.

quarta-feira, 6 de agosto de 2008

Os Olhos da Casa.

Na sala, os ouvidos do mundo
voltados pra televisão.
Os pais, a mãe, o avô, mudos
e o filho no quarto, na solidão.

Chegou atrasado na aula,
perdeu esperança em amor,
em cultura pra preencher o tempo,
e na rotina fincada ao longo dos dias.

Desamarrou os sapatos surrados,
num canto deixou a mochila
e dormiu, com cinco remédios pro sono
e outros três pro esquecimento.

De dia, na sala, todos acordam,
colocam no telejornal da manhã.
O pai, a mãe, o tio de ressaca, o avô, a irmã
tomam um café apressado de meias palavras,
de meios sentimentos engasgados,
junto com as bolachas,
o pão, e o talher.

No quarto ele continua dormindo,
num sono profundo, projétil pedante,
sem diálogo profano e o mundo ausente.
O ouvido do avô encosta na porta trancada,
queria saber o que se passava...
Mas de que adianta isso tudo, pensa ele,
põe os ouvidos no telejornal, na sala, na novela,
que se confundem,
e já saberás onde andam os ouvidos que ouvem essa casa.

Deu meio-dia no quarto
e ele nem havia acordado.
Dormiria mais uma vida em segredo,
se necessário.
Quem saberia do que seus olhos vêem?
Do que se anda pelo mundo
e os passos desabrigados que ele dá na rua?
Os olhos da casa estão virados,
os olhos da casa não enxergam a um palmo.
Todos estão ligados em outras coisas.

A Língua.

A língua lambe o céu da boca.
A língua, lânguida, longínqua,
libera a libido, longe, solta
e pinta o paralelo da lua,
a língua, indistinta, leve, louca.

Aos lábios a língua saliva,
lubrifica lacante a boca alheia,
no lounge do limbo excita a veia,
na luta cavalar que trava lá,
sem lógica, lugar ou moral.

A lascívia dos olhos, que lacrimeja,
a leste dos lábios, e longe da língua.
Aos olhos invade a inveja, que almeja
a longitude dos lábios, sua luxúria,
seu lugar lúbrico e a liberdade do labor.

Ao lavrar sua lástima, deseja a língua,
livrar-se das lágrimas latentes dos olhos,
e o fala dos lugares lúdicos que só ele vê,
da beleza das letras, e o lançar do amor,
que aos lábios e línguas lhe podem tocar.

segunda-feira, 4 de agosto de 2008

O Emanar Invisível d'Alma Urbana

Aos olhos do turista,
que no alto da janela despressurizada do avião,
o Recife que ele avista,
tão tarde, tão cheio de si,
não passa somente de uma Veneza,
pois Veneza, Recife não é.
Recife que cresceu,
sem querer perder o charme de ruas antigas
e deixou suas vielas
com o tamanho das veias,
dos cidadãos.

Aos pés dessa terrinha onde ele pisa
com histórias escritas e enterradas,
de um passado que insiste em perdurar,
dormem sonhos bucólicos,
glórias adormecidas,
revoltas sufocadas,
hoje sufocadas na garganta do povo,
nos sentimentos guardados
em ideais da lama
e do suor do centro.

Com os pés na Boa Vista, ou na Viagem,
essa bagagem de turista não almeja,
a profundidade de um Recife
que vai além do que vê sua vista,
ou do que falam encartes,
iscas de passaporte.
A província recifense é quem vence,
nesse encontro onde todos se conhecem,
um Recife de viela,
que nunca deixou de ser vila.
Nem nunca quis deixar de ser.

Dormem sonhos emanados,
dos orvalhos das árvores do Espinheiro,
e dos telhados envelhecidos de São José,
com seu cheiro de mofo,
com sua madeira podre,
e a alma distinta,
de um povo que a toda hora é nobre,
e a toda hora se diz grande,
espelho onde o mundo mira,
onde o mundo se transforma,
onde o mundo, simplesmente, nasce.

Caos no Cais.

No Cais do Recife,
dei adeus a vida.
A saudade inchou meus pulmões,
e os peixes do oceano sujo,
que amanheceram boiando,
às margens do Capibaribe.

No rio de terra que plantei infecundo,
nasceram palavras à toa,
boiando à deriva,
num mar que Recife não mostrou,
nos arranhões que fizeram minha veia sangrar,
nos tubarões que passeiam à beira do mar.

Se há cais na Aurora,
meu riso desata e chora,
ao ver o Recife inundar.
A água que nasce esse hora,
e brota dos olhos, do pranto,
é um rio desejo formar,
invade minha alma aqui dentro,
com móveis, colchões e recantos,
e os sonhos que eu ia criar.

Se há caos na Aurora,
minha veia dilata agora
de imensidão, de sol.
Se há caos no Apolo
meus nervos fecundam o solo
e fazem junto essa dança, esse passo.
Se há caos na Alfândega,
me embaraço,
perco noção do espaço,
e o cérebro vira almôndega.
Se há caos no Cais de Santa Rita,
nas linhas que enchem a capital
me grita à cabeça o motorista,
e perco a hora do bacurau.

Se o ônibus não transita,
é a Conde da Boa Vista, motorista,
abre essa porta de trás,
abre a janela, não insista,
que o sol não me põe uma hora a mais,
o calor que emana lá da pista,
só me faz desaguar em maus lençóis
e não chego, nem fudendo, antes das dez.