terça-feira, 27 de outubro de 2009

Conta.

Há começo
e angústia
no início do ódio
há um lugar perto
da ponta do precipício
há a mão
que esmurra irritada
o prato que voa
Há, além do mais
a conta,
o troco,
o garçom,
os 10%.

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Horóscopo.

Sorte no horror
azar na ioga.

Sorte na fé
azar nos pés.

Sorte no chão
azar no céu.

Sorte na neblina
azar na motanha.

Sorte nos filmes
azar na composição.

Sorte nos erros
azar na perversidade.

Sorte no texto
azar no sexo.

Sorte no tempo
azar no relógio.

Sorte no roubo
azar na fuga.

Sorte no contra-cheque
azar no cartão de crédito.

Sorte na academia
azar no asfalto.

Sorte na afeição
azar no afeto.

Sorte na paz
azar nos passos.

Sorte na penha
azar à venda.

Sorte na escolha
azar na sorte.

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Maré Morta.

O que seria do mar,
se a cada mês
a maré não morresse?
Pra não deixá-lo revolto
com a angustiante saudade
das águas que partem
à lua nova.

E o que seria do mar, então,
se o traiçoeiro horizonte
não abrigasse, sempre,
a falsa esperança de se chegar?

O que seria do mar, enfim,
se o seu rebento na rocha,
não fosse a pancada pra lhe retirar
de um profundo luto de maré morta?

É pra desanuviar os sonhos,
depertados pela lua,
que o mar parte em aventura
pra desembarcar em outras praias,
enquanto aqui,
acalma o silêncio
na maré baixa.

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

A Triste História dos Dois Irmãos Beatos.

Mais um astuto infame gosto
dessa esclerose de sonhos.
Parece que Lívia aperta seu cinto,
Parece que Lauro aperta a gravata.
Todos se enforcam
todo santo dia.
Inconsequente rotina.

Na sala alguns morreram,
a maioria de tédio,
o resto, remorso e dor.
No quintal outros jazem
calados.

Foram às casas,
se escondendo aos montes,
túmulo sobre túmulo,
rebelados pela desventura,
rebelados pelo choque.

Agora jaz o intelecto.
Cada corpo, um mortuário.
Cada mente, um cemitério.

Calaram, ambos, os desafetos.
Lívia e Lauro são santos agora,
nomeados como irmãos.
Mal sabem os dois do seu destino,
Santos das Causas Infelizes.

terça-feira, 7 de julho de 2009

Palavra Pontual.

Vá depois,
seus olhos, seu carinho,
sua viagem torta,
e os anos que passam
sem que você perceba.
Tudo pode esperar.

Vá depois,
sem me levar junto
sem remover o pó velho
de cima dos móveis,
nem me deixar cair imóvel
como a casa que habitas.

Vá depois,
seus sonhos, suas metas
seu terno de linho,
seu traje esportivo,
seu penteado
e o dinheiro do dia.
Tudo pode esperar.

Vá depois,
mas sem me levar
sem me tomar os órgãos,
nem me afagar as mãos
na despedida.

Vá depois,
que eu colho,
que eu arrumo,
que eu teço,
que eu lavo.
Vá depois,
que eu imploro.

Vá depois,
não sem antes me dizer
onde estão meus livros,
onde deixei um ou outro sapato,
onde guardei lembranças,
onde perdi minha pele.

Vá depois,
e aí recolha o vestido com calma,
dobre bem a camiseta
e reflita como queira
sobre o que te espera
e sobre o que farás.
Não tenha pressa.

Vá depois,
pra depositar tua ansiedade
que não tem idéia de amanhã,
pra depositar esperanças
onde esperas que há.

Vá depois,
seu orgulho, seu medo,
seu saco de pão,
sua coleção de vazio,
seu canto de quarto,
seu armário oco.
Isso pode esperar.

Vá depois,
e me olhe agora
tal como sou,
num sussurro.
Pois agora tudo espera imóvel,
toda a mobília e os insetos da casa,
a nos olhar de relance,
a aguardar minha palavra,
desejosa de falar qualquer coisa
que não te faça ir mais nunca.

sábado, 13 de junho de 2009

Um Vazamento.

Goteja,
como tortura
o ar tão preso
sustenta o peso
da clausura.

Goteja,
como água suja
idílio de desgosto,
demasiado tarde
a navegar na lama.

Que seja!
Infame como o futuro
suspiro o ar tão fraco
alarde o vento parco
imperial, impuro.

Goteja,
a quem deseja gotejar
o arrulhar dos pombos,
tua face assim, doente
o olhar frio que lamenta.

Goteja,
como ciúme
o mar desfaz então
a onda desponta,
alinha o barco no infinito.

Que seja!
No mar aflito
as mágoas não têm altura,
sustentam o peso da clausura
no ritual mítico da praia.

Goteja,
gorjetas,
pra eu enriquecer,
as gotas me esgotam,
a gorjetear.

Para que?
Para que, então, gotejar?
E no fim não ser,
Dia a dia,
gota a gota?

terça-feira, 9 de junho de 2009

Poesia Urbana III (Ao Soar o Dia).

Conduta
maldita
de quem
anda
se mal findou
a meia-noite,
se ainda
falta o ar
à madrugada
pra expulsar
do horizonte
o teimoso sol
e aquele
sono poente.

Atrás de um
vão dois
e três
e mais
a andar
às quatro
antes mesmo
das cinco
a circular
no calçadão
ainda frio
de uma frívola
noite vagabunda,
sombras fortuitas
ao mar
no marulhar
de ondas,
na neblina
de sol
nascente,
película
insegura
sobre a onda
que segura
esse caminhar.

Os passos
a perdoar
o dia anterior
as penas,
a pedir futuro,
pensando
a cada passada
como cada onda
reflete
o percurso,
a caminhada
matinal dos dias
a matar o ócio,
mortificar
os ossos
na acidez
da maré
que bate
aos pés.

Perdulárias
pontes
a separar
os restos
do café-da-manhã
e o resto
do mundo,
pendurado
à sede
da rotina,
tardia,
tacanha,
sacal,
a saculejar
diários diabos
no sufoco
dos coletivos,
carros fúnebres,
a coletar cada
alma que passa,
passageira,
ao soar o dia,
num suor
que seca
sempre
a seiva
do imaginário
que,
ao menos antes,
pôde comungar
com a praia.

quinta-feira, 4 de junho de 2009

Adocicado.

O tempo me soará
tua sombra me sugará
mas quem vai açucarar
os meus dias?

A Partida.

Ele parecia ter rompido o segredo,
destruiu as tulipas, os pratos, as taças.
Abandonou o segredo junto com a casa.
E parecia ter partido.

Ele parecia revolto
com palavras breves
com gritos fortes,
a madeira absorvia na parede,
os vizinhos resvalavam na porta
esperando ouvir algo.

Ele parecia ter rompido o segredo,
as palavras de amante, o sexo,
a soma de prazeres,
mentiras sujas,
roupas sujas
e parecia partir,
com aqueles olhos na cara,
a selva enigmática de sonhos
de sutilezas e de segredos rompidos.

Não sei se era desgosto,
desfez as mágoas no líquido,
assombrou papéis,
desfigurou a porta,
e transpassou meu peito roto,
rompendo planos, poemas,
me pondo só.

Ele parecia quieto,
em outrora solto,
mas pisava em ovos.
Minha palavra nada valia
para que o prendesse.

Ele parecia haver rompido o segredo,
o segredo do pólen, das frutas,
o segredo do sangue,
do abismo, dos santos,
das putas, do hímen,
da fálacia, do fálico,
da felação impura, ardente.
Aquele segredo de amantes.

Não sei se era o futuro
amedrontando seus olhos,
a casa correta,
a linha correta,
a pureza pútrida
da putaria da vida.
Que raiva eu senti
da normalidade,
que raiva eu nutri
do resto.

Ele parecia haver rompido tudo
e partia.
Partia dos meus olhos,
dos cômodos comprados pra cada
canto do apartamento.
Partia meu rosto,
na ferida de apenas romper
a casa partida.

No assoalho de tacos,
nos tapetes, nos lustres,
nos vitrais do armário,
nas bebidas quentes,
no abajour do quarto,
nos livros da estante,
na mesa de centro
onde jantamos
e nos comemos.
Tudo ali era resto,
ele parecia haver partido.

Ele parecia haver rompido o segredo
o segredo das noites,
o segredo das portas,
o segredo dos pratos,
mas os cacos da louça
nem sequer esperaram o lixo,
pois agora ele voltava,
irrompia na sala
pra me romper mais ainda,
com a delicadeza dos passos,
com a finura da boca,
com aqueles olhos que me diziam
que tudo era mais simples na vida
se o seu lugar fosse ali.

segunda-feira, 18 de maio de 2009

A Menina dos Olhos Deturpados.

No relógio do vento
via as horas passar na copa das árvores,
no jardim de casa
via a terra viver com seus pequenos bichos,

Via cada detalhe de tudo,
os sons esquecidos por todos,
o faro despercebido,
com um tato faminto de criança.

A menina no jardim
via os pingos sobre o óleo da seiva,
os galhos retorcidos
da goiabeira,
os sonhos detidos entre as folhas.

Criava no jardim a sua horta,
plantando futuro,
e colhendo lembranças.

A menina entretida
percebia os olhares cegos
no canto da porta,
os passos dos gatos,
os uivos noturnos.
Cada fresta de corpo,
cada cheiro novo,
o preparo dos doces,
a mesa ao jantar,
e a fumaça do café
sob o frio úmido
daquele inverno.

A menina dos olhos abertos
a enxergar cada problema entre irmãos,
cada discórdia, cada vingança
e cada doença venérea.

A menina isolada,
que ao ver um simples garoto,
de um amor pequeno e bobo,
não viu mais nada adiante,
com os olhos detupardos de frio
e de calor ao mesmo tempo,
e sem entender direito
por que aquela vista,
tão acostumada a observar tudo,
reagia com um receio novo
àquela tão frágil descoberta.