quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

A Noite.

A noite é cheia de lábios
coberta de ventos
e suores noturnos.

É cheia de angústia
repleta de toques
e pousa sacana
sobre a pele dos homens.

A noite é toda sensível
e sua carne molhada,
tão cheia de dedos,
não aprendeu a ser lei de ninguém
não aprendeu a ter fome.
A noite sempre está satisfeita.

A noite, repleta de olhos,
observa os que passam.
No meio da solidão
a noite faz o escuro
cheia de nudez,
farta de melodramas,
ávida por sabores.

A noite cansou de ceder à fraqueza
d'um amor gasto, sem fim nem saída.
Agora tenta ver beleza nos outros,
retoca a perversidade na maquiagem,
nos roupas decotadas,
nas unhas que ofuscam.

Não aprendeu a ser terrena.
Não aprendeu o que vale mais,
se o consolo do chão
ou a louça desmanchada nos ares.

A noite não é,
nunca foi inocente.
Apenas aprendeu
que o desejo dos poros
às vezes importa mais
que a substância efêmera
do seu próprio suor.

A noite, repleta de bocas,
também se ilude
e agora cospe a desconfiança.
Não aprendeu as boas maneiras,
não viveu ainda o suficiente,
não correu todos os riscos
pra dizer que o raiar do dia
a tornou completa.

A noite precisa de mais.
Vai afogar seus fantasmas,
vai encharcar os cabelos
e se banhar desnuda
no mar bondoso
de uma manhã de maio.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

As Duas Vias.

Um canavial
havia
um carnaval
havia
aviador
avião
ao avesso
viajava
no vapor
dos versos
à trovoada,
no vendaval
havia
as veias
da viagem
como vértices
como vírus
dividindo
o vento
veloz,
ao ver
que o verde
da vã divergência
não vislumbrava
o valor
do canavial
que a via
vendida
na avenida
na veia principal
as duas vias
da vida,
desde onde veio
até onde vai,
e onde há
depois.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Carta ao Pai.

Tem razão,
a escolha está nos passos
no limpo aspiro dos contidos
na temporada certa
nos dias incertos
na noite calma.

Tem razão,
o tempo está nos olhos
na boca e nos sentidos
impresso nos lábios secos
de quem um dia
viu a vida limpa
através do cristalino.

Tem razão,
a razão está nos sábios,
mas muitas vezes nos meninos,
nos loucos, nos mundanos,
na alegria

e na perversão.

Tem razão,
eu, um dia, me acabei pelos dedos,
retirei o pouco de pó dos cílios
desfiz minha genética,
desfiz minha carga cultural
desfiz a maquiagem velha
e saturada de uma face febril
e vi um mundo mais simples,
bem como me havia dito.

Tem razão,
a vida depois de nós
é feita pros filhos,
pros netos,
é feita pra se esperar
tranquilo
um futuro imediato
e incerto.

Tem razão,
nem toda escolha é correta,
nem toda aflição tem sentido,
nem todo beijo é sincero,
nem todo filho é bom pai,
nem todo pai aparece,
nem todo pai padece
na memória do filho.

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

Onde Pousa o Pranto.

O lamentar
constante
aumenta
o manto
do alimento
infame
que é o pranto.

Ao lamentar
constantemente
um fragmento coerente
de pensamento
se desprende
da fronte,
do horizonte,
do vento quente
da consciência,
e vai pousar
no relento ausente
da outra margem
do atlântico.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Conta.

Há começo
e angústia
no início do ódio
há um lugar perto
da ponta do precipício
há a mão
que esmurra irritada
o prato que voa
Há, além do mais
a conta,
o troco,
o garçom,
os 10%.

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Horóscopo.

Sorte no horror
azar na ioga.

Sorte na fé
azar nos pés.

Sorte no chão
azar no céu.

Sorte na neblina
azar na motanha.

Sorte nos filmes
azar na composição.

Sorte nos erros
azar na perversidade.

Sorte no texto
azar no sexo.

Sorte no tempo
azar no relógio.

Sorte no roubo
azar na fuga.

Sorte no contra-cheque
azar no cartão de crédito.

Sorte na academia
azar no asfalto.

Sorte na afeição
azar no afeto.

Sorte na paz
azar nos passos.

Sorte na penha
azar à venda.

Sorte na escolha
azar na sorte.

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Maré Morta.

O que seria do mar,
se a cada mês
a maré não morresse?
Pra não deixá-lo revolto
com a angustiante saudade
das águas que partem
à lua nova.

E o que seria do mar, então,
se o traiçoeiro horizonte
não abrigasse, sempre,
a falsa esperança de se chegar?

O que seria do mar, enfim,
se o seu rebento na rocha,
não fosse a pancada pra lhe retirar
de um profundo luto de maré morta?

É pra desanuviar os sonhos,
depertados pela lua,
que o mar parte em aventura
pra desembarcar em outras praias,
enquanto aqui,
acalma o silêncio
na maré baixa.

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

A Triste História dos Dois Irmãos Beatos.

Mais um astuto infame gosto
dessa esclerose de sonhos.
Parece que Lívia aperta seu cinto,
Parece que Lauro aperta a gravata.
Todos se enforcam
todo santo dia.
Inconsequente rotina.

Na sala alguns morreram,
a maioria de tédio,
o resto, remorso e dor.
No quintal outros jazem
calados.

Foram às casas,
se escondendo aos montes,
túmulo sobre túmulo,
rebelados pela desventura,
rebelados pelo choque.

Agora jaz o intelecto.
Cada corpo, um mortuário.
Cada mente, um cemitério.

Calaram, ambos, os desafetos.
Lívia e Lauro são santos agora,
nomeados como irmãos.
Mal sabem os dois do seu destino,
Santos das Causas Infelizes.

terça-feira, 7 de julho de 2009

Palavra Pontual.

Vá depois,
seus olhos, seu carinho,
sua viagem torta,
e os anos que passam
sem que você perceba.
Tudo pode esperar.

Vá depois,
sem me levar junto
sem remover o pó velho
de cima dos móveis,
nem me deixar cair imóvel
como a casa que habitas.

Vá depois,
seus sonhos, suas metas
seu terno de linho,
seu traje esportivo,
seu penteado
e o dinheiro do dia.
Tudo pode esperar.

Vá depois,
mas sem me levar
sem me tomar os órgãos,
nem me afagar as mãos
na despedida.

Vá depois,
que eu colho,
que eu arrumo,
que eu teço,
que eu lavo.
Vá depois,
que eu imploro.

Vá depois,
não sem antes me dizer
onde estão meus livros,
onde deixei um ou outro sapato,
onde guardei lembranças,
onde perdi minha pele.

Vá depois,
e aí recolha o vestido com calma,
dobre bem a camiseta
e reflita como queira
sobre o que te espera
e sobre o que farás.
Não tenha pressa.

Vá depois,
pra depositar tua ansiedade
que não tem idéia de amanhã,
pra depositar esperanças
onde esperas que há.

Vá depois,
seu orgulho, seu medo,
seu saco de pão,
sua coleção de vazio,
seu canto de quarto,
seu armário oco.
Isso pode esperar.

Vá depois,
e me olhe agora
tal como sou,
num sussurro.
Pois agora tudo espera imóvel,
toda a mobília e os insetos da casa,
a nos olhar de relance,
a aguardar minha palavra,
desejosa de falar qualquer coisa
que não te faça ir mais nunca.

sábado, 13 de junho de 2009

Um Vazamento.

Goteja,
como tortura
o ar tão preso
sustenta o peso
da clausura.

Goteja,
como água suja
idílio de desgosto,
demasiado tarde
a navegar na lama.

Que seja!
Infame como o futuro
suspiro o ar tão fraco
alarde o vento parco
imperial, impuro.

Goteja,
a quem deseja gotejar
o arrulhar dos pombos,
tua face assim, doente
o olhar frio que lamenta.

Goteja,
como ciúme
o mar desfaz então
a onda desponta,
alinha o barco no infinito.

Que seja!
No mar aflito
as mágoas não têm altura,
sustentam o peso da clausura
no ritual mítico da praia.

Goteja,
gorjetas,
pra eu enriquecer,
as gotas me esgotam,
a gorjetear.

Para que?
Para que, então, gotejar?
E no fim não ser,
Dia a dia,
gota a gota?